ANGOLA, DE TERRA DA GRANDE PROMESSA À TERRA DAS GRANDES MISÉRIAS



1. Introdução


Este é o continente
um corpo indestrutível de acidentes
o chão que permanece das batalhas
a terra exposta para além das chagas
o ventre a renovar-se em gerações
erguidas da derrota.

Este é o chão aberto ao sol
esta é a voz de que se enfeita o pão
este é o leito manso para a vitória.

Ruy Duarte de Carvalho[1]

A construção do conhecimento não se dá de forma isolada e descontextualizada; é necessário que a busquemos nas vivências diárias, na realidade pessoal e numa incansável busca pelo não dito, não revelado e não escrito.
Com base em teóricos como Walter Benjamim, Marc Bloch e Lucian Febvre, desconstrutores e questionadores da história tradicional, estamos diante do impasse daquilo que nos pode revelar um novo enfoque da história, o que se chamou “história nova” ou “história dos vencidos”.
Na região do Vale do Paraíba no estado do Rio de Janeiro, deparamos-nos com velhas fazendas de café, grandes impérios construídos com o sofrimento de negros africanos, trazidos ao Brasil, na época da escravatura. Como revisitar essa história? Acostumamos-nos com a história contada nos livros e com a história positivista e tradicional.

Visitando o Centro de Documentação Histórica de Vassouras, no Rio de Janeiro, revivemos um pouco da humilhação e do tratamento “coisificado” dado aos negros, na época da escravidão, através de fatos hediondos relatados em antigos escritos guardados no CDH. Folhear cada velha página traz, ao leitor sensível, a consciência do total desconhecimento da nossa história, seguida do questionamento do porquê a conhecemos tão pouco e, mais, por que apenas a conhecemos com o olhar do dominador, sob o ponto de vista cronológico, linear e manipulado.

Numa visita à Fazenda Santa Clara, em Rio Preto, Minas Gerais, o relato que antes era conhecido nos escritos do CDH e que permeavam o imaginário, tornou-se instigantemente real. Presenciar a senzala vazia, antes ocupada com a dor, o suor e o sangue, foi trazer à tona a idéia de repensar a história tradicional, que revisitada no século XXI, faz-nos compreender as injustiças cometidas à época. Andar pela velha fazenda de Santa Clara, onde seres humanos foram maltratados, era olhar a história no que ela não foi contada, uma história “negra”, não por causa das peles negras dos homens, mulheres e crianças que ali viveram vidas desumanas, mas por causa da imensidão de perguntas sem respostas, por uma multidão de vozes emudecidas e pelas ruínas imorais, sustentáculos da nossa história.

Revisitar a história com um novo olhar é, sobretudo, desvencilhar-se do “presente”, fato imprescindível para vê-la não como ela nos foi apresentada e, sim, como ela foi vivida. Tanto no CDH de Vassouras, como na Fazenda de Santa Clara, um ponto culminante sobressai das visitas realizadas: conhecendo hoje os conceitos propostos pela Nova História, é impossível ser apenas figurante da nossa história e deixar que ela continue calando a história das minorias, dos menos favorecidos, das favelas, dos “musseques”. Entrar na história é preocupar-se com as entrelinhas, é desprender-se dos preconceitos, das pseudojustificativas, é arrancar dos olhos a venda que o colonizador nos impôs, é ter curiosidade daquilo que foi calado, é escarafunchar as ruínas, é olhar o que foi escondido debaixo dos grandes tapetes do tempo.




2-Angola, DE TERRA DA GRANDE PROMESSA À TERRA DAS GRANDES MISÉRIAS.


além África dos atrasos seculares
Em corações tristes
Eu vejo
As mãos esculturais
Dum povo eternizado dos mitos
Inventados nas terras áridas da dominação
As mãos esculturais dum povo que constrói
Sob o peso do que fabrica para se destruir
Eu vejo além África
Amor brotando virgem em cada boca
Em lianas invencíveis da vida espontânea
E as mãos esculturais entre si ligadas
Contra as catadupas demolidoras do antigo
Além deste cansaço em outros continentes
A África viva
Sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
E rosas e pão
E futuro.


Agostinho Neto



Angola situa-se na costa ocidental da África e possui uma rede hidrográfica privilegiada ao nível do continente; tem como rios principais o Kwanza, o Zaire e o Cunene. O país hoje tem como língua oficial o Português, uma herança dos tempos coloniais, porém, há algumas línguas nacionais como: UMBUNDO, KIMBUNDU, KIKONGO entre outras. A população é, predominantemente, cristã e a religião Católica é a mais difundida.
O território angolano foi habitado desde a idade da pedra, como foram encontrados vestígios de uma arte rupestre ao longo do litoral do país, acredita-se que as migrações de povos mais evoluídos, os bantu, vindos do norte africano e que foram responsáveis pela introdução de novas técnicas em Angola, como a metalurgia, a cerâmica e a agricultura, criaram, então, as primeiras comunidades agrícolas. Por volta de 1400, surgiram dois grandes sistemas: o reino do Congo e o reino de Ndongo. O reino de Ndongo era constituído pela etnia Kimbundo e a seu rei era dado o título de Ngola, daí a origem do nome do país.

A presença de Portugal em Angola deu-se a partir do século XV(1482), quando D. João II subiu ao poder e desejou alongar extraordinariamente os domínios portugueses além-mar. O reino de Ngola se manteve hostil à presença dos dominadores. Entre 1605 a 1641, ocorreram grandes campanhas militares dos colonizadores, numa tentativa de implantar o domínio político e territorial em Ngola. Os chefes Ngolas resistiram, entre eles se destacou a liderança da rainha Nginga que tinha grande habilidade política.

Angola foi uma colônia portuguesa invadida e dominada por muitos anos. Antes era ocupado por seu povo livre, dono da terra, povo alegre, guerreiro, que vivia ao seu modo, no comportamento de sua gente e acabou por se transformar num lugar de dor e degradação.
Angola foi a terra da “grande promessa” onde o português com seu poderio militar, mercantilismo e com uma operação ideológica “a dilatação da fé e do império” impôs seu povoamento “branco”, usurpando a terra e o seu povo. O povo angolano passou a viver sob o jugo colonial do dominador que, no início, era visto como um salvador que traria uma melhoria pra suas vidas, porém, a máscara da bondade logo se desfez, pois os negros passaram a ser tratados como coisas, usados e vendidos como propriedades do branco, além de serem considerados como seres sem alma, sem vida própria, que necessitavam de uma nova língua, uma nova religião, um novo nome e uma nova cultura.O negro era como um boneco de barro a quem o português, na sua atitude humanista, soprar-lhe-ia o “fôlego da vida”.

Assim, o povo foi perdendo sua característica de povo, foi se dividindo, dissipando-se. As comunidades viravam senzalas, os portos, saídas para os escravos, onde as torturas e os maus tratados eram comuns.O tráfico de escravos e o comércio costeiro cresciam, toda exploração tanto do trabalho quanto das riquezas da terra fluíam com um único objetivo: enriquecimento do colonizador e financiamento de novos “povoamentos brancos”, tudo em nome do Império.
O povoamento branco em Angola não se deu de forma pacífica, mas o dominador soube muito bem persuadir o colonizado e dividir os negros, dando a uns privilégios e a outros, castigo e morte. A penetração do interior dos territórios contava sempre com a força bélica de Portugal que dizimava tribos, povos e etnias, aniquilado-as ou conduzido-as à escravatura. É incontável o número do extermínio gerado pelos “bravos do infante” nessas missões de “fé”, porém, fizeram-no a poder da fraqueza e do sofrimento alheio, justificando sua barbárie em nome de um rei, de um deus e de uma suposta superioridade cultural do povo português.

A ocupação de Angola recebeu um impulso redobrado, sobretudo, em meados do século XIX, quando, então, cobria-se o avanço dos civis e guardava-se a integridade física dos missionários que se ocupavam em catequizar os negros, batizando-os com nomes brancos. Ia para Angola todo tipo de gente desde topógrafos, funcionários, aventureiros, como também, homens violentos, exilados políticos e até os primeiros imigrantes que logo se ocupavam da distribuição da terra ou das chamadas “terras-de-ninguém” ou “terras do fim do mundo”.
Assim, crescia em Angola o sonho imperialista do colonizador, enaltecendo sua postura de desbravador do mar e conquistador de terras distantes; em contrapartida, arruinava-se uma rica raça de costumes e crenças.O povo internalizava o costume branco, o negro enfraquecido se despia de sua cultura e aceitava o que lhe impunham, vivendo com a máscara branca de civilidade e superioridade.

Entre muitas riquezas da terra, Angola era rica em diamantes e a exploração era cada vez maior e mais intensa.Os colonizadores usavam o discurso de que a riqueza da terra ajudaria no progresso do país, mas nada era feito pelos nativos, pelo contrário, toda riqueza era absorvida pelos brancos.
Em 1951, as colônias passaram a constar na Constituição como províncias ultramarinas, numa possível tentativa de evitar que a ONU as colocasse na lista de territórios a descolonizar. Em Portugal, o líder político era Salazar que temia a independência de Angola, a qual foi a ultima colônia portuguesa a se tornar livre, pois Salazar se fazia de “surdo” aos apelos de descolonização e se preparava para lutar pela dominação territorial. Esse ditador não via a evolução das coisas, pelo contrário, estagnava-se.

O tempo passou e os anseios calados foram sendo cada vez mais intensos, a resistência africana reivindicava para si seu tempo e seu espaço, a dominação que nunca fora aceita, passava a ser repelida de forma mais contundente. Dava-se o sonho de liberdade! Os nativos davam, cada vez mais, sinais de revolta, entre eles alguns mais instruídos lideravam reivindicações salariais, melhores condições de vida e liberdade. Eram tidos como subversivos, presos e, muitos deles, mortos. Salazar perseverava no desejo ter sempre o domínio de Angola e qualquer idéia contrária era tida como heresia.

No seio de Angola, surgem movimentos de Independência, iniciados em 1961, o país mergulha em conflitos, há guerras internas, grupos em desacordo total, movimentos de guerrilha, entre eles está Jonas SAVIMBI que posteriormente à independência de Angola foi o responsável pela maior degradação humana angolana, levando a fome e o horror a milhares de civis por todo o país. Dos movimentos nacionalistas que lutavam pela libertação de Angola, três se destacaram como o MPLA – Movimento popular pela libertação de Angola, UNITA - União Nacional pela libertação de Angola, e o FNLA -Frente Nacional de libertação de Angola. Dos movimentos de libertação, somente o MPLA foi considerado, pela organização da Unidade Africana OUA, em novembro de 1964, como o único movimento com capacidade para combater o colonialismo português e assumir o poder.

O MPLA era comandado por Agostinho Neto e foi o primeiro movimento mais atuante a ser organizado em Angola e ter reconhecimento e legitimidade. Os conflitos armados se seguiram, conflitos internos e os jogos de interesses castigavam o povo sofrido de Angola, levando muitos a abandonaram o país numa luta pela sobrevivência.
Em 1975 no dia 11 de novembro, Angola é declarada independente de Portugal, garantindo-se a liberdade dos partidos políticos existentes, mas quem subiu ao poder e se tornou o primeiro presidente de Angola, foi Agostinho Neto do MPLA.



2.1 – Boaventura cardoso: um escritor angolano

Boaventura Cardoso nasceu em Luanda em 26 de julho de 1944, viveu sua infância na região de Malanje. É licenciado em Ciências Sociais e diplomado em Antropologia das regiões pela Universidade Pontífica de Roma. O autor viveu no tempo dos conflitos de seu país, seus escritos, num primeiro momento, retratam essa fase combativa e extremamente contrária à colonização portuguesa. Mas, é no plano da linguagem que o autor mais se destaca, ele é um dos escritores mais representativos da sua geração e da literatura angolana. Boaventura Cardoso, política e culturalmente engajado traz, em sua obra o novo olhar da história, dá voz e vez aos calados, faz de seus contos o relato vivo da história de seu povo, um povo sofrido, humilhado que acabou internalizando, obrigatoriamente, um conceito para si mesmo, perspectivado pelo branco.

O autor apresenta em sua primeira obra, DIZANGA DIA MUENHU, traços marcantes da oralidade que se aproximam de sua língua materna como que num desabafo, num clamor à valorização e resgate da cultura africana, oprimida e sufocada pelo colonizador. O autor não é somente um escritor que quer contar uma história, ele assume seu papel de cidadão angolano na luta para denunciar as injustiças, na luta para reconstruir a pátria e seus valores, recriando uma realidade literária, denunciando a variação no funcionamento da língua portuguesa em Angola.



3- UMA “VELHA HISTÓRIA” E UM NOVO OLHAR.

Para contar um fato histórico, seja ele político, econômico ou cultural, devemos sempre levar em conta três breves questões: Quem conta? Quando conta? De onde conta? Partindo desses pontos, entenderemos que todo fato é contado por alguém que traz consigo e revela, através de sua subjetividade, um olhar pessoal; sendo assim, a história é relativizada.
Durantes os séculos passados, a história foi sempre contada através de um único prisma, de forma manipulada, repetindo a fala dos grandes reis, das grandes conquistas, dos grandes fatos dos exploradores, dos desbravadores, dos jogos de interesse, enfim, daqueles que detêm o poder econômico.

A cultura africana sempre foi acusada de ser uma cultura atrasada e selvagem, por causa desse olhar manipulado do dominador. Hoje sabemos que essas afirmações são questionáveis e, partindo disso, historiadores como Marc Bloc e Lucien Febvre e filósofos como Walter Benjamin revolvem o passado em busca de “verdades” soterradas. Esses homens começaram a pensar a história de outra maneira, começaram a olhar a história intrigando-se com ela, naquilo que estava escondido, no que não fora revelado por causa dos jogos de interesses que sempre permearam a História tradicional.

Walter Benjamim foi essencialmente um filosofo que desenvolveu teses para o estudo da história, ele foi um personagem central da Escola de Frankfurt, uma figura culta e pouco compreendida em sua época. Ele, em suas teses para o estudo instiga-nos para a importância de termos um novo olhar da história e ver a história tradicional a contrapelo, escarafunchando as ruínas que o tempo foi deixando soterradas. Para Walter Benjamim, a história oficial constitui uma versão deformada do passado, construída no presente. A história tradicional acaba por ser uma “ficção”, uma montagem seletiva de acontecimentos passados num encadeamento linear voltado a atender interesses de pequenos grupos do poder. Através de Walter Benjamim, somos concitados a conhecer a história dos vencidos, a história problematizada. A história, segundo Walter Benjamim, reduz-se a uma história enviesada ou, mais concretamente, a uma escritura histórica triunfalista: a uma história dos vencedores, ou melhor, a uma história dos grupos dominantes. Como nos cita Walter Benjamim no trecho de suas teses sobre a filosofia da História: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo tal como ele foi efetivamente. É muito mais apropriar-se de uma recordação que brilha num momento de perigo.”

Por outro lado, Marc Bloch e Lucian Febvre também foram estudiosos de um outro olhar da história, eles faziam parte da Escola dos Annales, cuja abordagem para o estudo da História trouxe conseqüências e influências até os dias de hoje. Os Annales procuravam uma história sem fronteiras, uma história problematizada, interdisciplinar, com diálogo aberto para todas as áreas do conhecimento. Fez-se contra o vazio dos fatos, contra ao jogo entre grandes homens, grandes batalhas e a exaltação de grandes povos. A nova história busca compreender o homem na plenitude de seu viver. A escola dos Annales trazia uma ruptura com a historia tradicional, provocando assim um outro percurso para o estudo da história.

Contar a história com o olhar do poder é calar a voz da maioria, daqueles que sofreram por causa da falta de respeito dos que sempre detiveram o poder econômico. Conceber uma história afastada da historiografia tradicional da classe dominante e da história triunfalista é começar a contar a verdadeira história do mundo, é, sobretudo ouvir os murmúrios calados e sufocados. Com os conceitos da Nova história temos, então, a possibilidade de conhecer o que foi calado, pois a nova história aceita a oralidade para se conhecer a história da humanidade. O texto escrito já não é a única fonte de “verdade absoluta”, pelo contrário, o texto escrito passa a ser questionado, pois, sendo escrito, foi escrito por alguém. Quem era o escritor? Que influências ele possuía? De onde ele escreveu o texto? Por encomenda de algum rei? Um nobre? Um chefe? Assim, a história que se limitava aos grandes relatos dos grandes, passa a ser contada pelo que podemos chamar de história do cotidiano. É imprescindível examinar a história da historiografia na sua longa duração.

Na nova história, a história inclui qualquer traço ou vestígio das coisas que o homem fez ou pensou desde o seu surgimento sobre a terra, utilizando todas as descobertas da humanidade, pesquisadas por antropólogos, economistas, psicólogos, sociólogos, políticos, enfim, todos os que possam de alguma maneira, ajudar na revisitação da história tradicional. Segundo François Simiand, em seu famoso artigo, ele diz que para se contar a história, três ídolos deveriam ser derrubados: o Ídolo político que seria a eterna preocupação com a história política, os fatos políticos, as guerras que conferem a esses eventos uma exagerada importância; o Ídolo individual que seria a ênfase excessiva dos chamados grandes homens; e o Ídolo cronológico que seria o hábito de perder-se nos estudos das origens.

A nova história busca desmistificar o poder, mostrando que grandes reis, grandes homens da história foram apenas pessoas comuns que, em determinado momento da história tradicional, tiveram seus feitos muitas vezes exageradamente relatados, criando “ilusões coletivas” que aguçam o imaginário até os dias atuais. O que criava a fé no milagre era a idéia de que deveria haver um milagre. Kal Popper 1935
Grandes acontecimentos da história, se revisitados hoje, com esse novo olhar que a História Nova vislumbra, revelariam que nossa história oficial está cheia de muitos enganos, fatos mal interpretados, grandes exageros e uma infinita quantidade de questões mal postas, onde, muitas vezes, o problema da relação entre o indivíduo e o grupo, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social era uma questão insolucionável.

Partindo dessas novas abordagens, conclui-se que todo olhar da história deve ser parcial e nunca um olhar absoluto, para não incorrermos nos mesmos erros da história oficial que privilegiou a aparência, escondendo a essência; apresentando os fatos de uma forma que, na maioria das vezes, não correspondia à total realidade, o passado projetado no futuro com as marcas do presente, numa idéia quase determinista. Contar a história é trabalhar com as possibilidades, estar aberto a novos dados, novas fontes e novos relatos, desconfiando das tradições e dos relatos que por muito tempo alienaram o homem.
Contudo, a história passada precisa ser recontada. Não ter passado é deixar de construir o futuro. O futuro que se faz no presente precisa redimir o passado, dando vez aos que foram calados. Mesmo que esse passado esteja saturado do presente, é necessário reconstruí-lo não como ele foi, mas naquilo que não foi dito.

3- A história TRADICIONAL e O texto literário

Boaventura Cardoso em seu livro Dizanga dia Muenhu conta a história dos vencidos, a história do cotidiano, dos pequenos, dos detalhes, do povo comum, do povo sofredor, dos protagonistas de uma história na contramão da história tradicional, relata fatos que jamais seriam contados na história dos grandes, numa história linear, cronológica, sem problemas, numa história revelada pelo olhar do poder que acaba alienando o homem.
O autor angolano em Dizanga dia Muenhu quer externar o desejo de falar sua própria língua na sua realidade.Quer contar a história vista com o olhar de quem a viveu, daquele que a conheceu conforme ela foi vivida, denunciando as barbáries cometidas e desfazendo as pseudojustificativas que por séculos permearam a nossa história e a legitimaram.

O livro Dizanga dia Muenhu é dividido em dez contos que trazem uma narrativa idealizada e um narrador que se coloca ao lado daqueles que foram massacrados física e psicologicamente, descreve a situação política de seu país num momento de intensa transformação e revolta, onde uma ditadura repressora e violenta calava os anseios de alguns e seduzia, através da fraqueza a outros, colocando os grupos uns contra os outros, a fim de enfraquecê-los e dividi-los, em troca de benefícios para uns e a degradação moral de outros.

O autor descreve as conseqüências para aqueles que discordavam e lutavam contra o sistema político a que eram submetidos; rotulados de subversivos eram torturados no corpo e na mente, como no conto Juca meu Avilo[2] : Novamente o chicote a lhe sangrar nas costas. Suas famílias viam-se desamparadas e eram obrigadas a despir-se de seus valores e submeter-se em busca da sobrevivência : Nazoras que os vizinhos ensonavam o cansaço, Rosa começou no fabrício de Kimbombo[3], algum dinheiro para sustento Amizade dela com Fifi, munhangueira[4] ...”

O negro, durante todo o período colonial, ansiava pela liberdade como no trecho do conto A família Pompeu e Costa: Miséria nas casas dentro e fora, mas a esperança duma vida outra está crescer crescendo, crescendo risos na boca e nos olhos. Com a idéia da Independência, esse anseio se transformou em esperança para o fim das injustiças, onde os negros poderiam expressar sua cultura, falar sua língua, viver sua religiosidade, comportar-se na família e na sociedade de forma plena, resgatando o que lhe fora roubado.
Em alguns contos de Dizanga dia Muenhu, Boaventura Cardoso revela personagens que se mantêm firmes em seus ideais, enfrentando vários problemas e conseguindo sobreviver. Assim, o autor quer demonstrar a bravura e a força de uma raça que, mesmo corrompida, seduzida culturalmente e sendo vítima da falta de respeito, consegue erguer-se, transformando a dor em canto e a lágrima em recomeço.

Nos contos de Dizanga dia Muenhu, encontramos uma estrutura que permeia relativamente todo o livro: o negro é sempre visto pelo autor como um ser forte quase um herói, seduzido pelo discurso do dominador, ele se torna a vítima, o ser anulado e aquele que é excluído. O branco é sempre o arbitrário, o vilão, o covarde, é aquele que detém o poder e a força, mas não a força do negro corajoso e sim a força bélica da arma de fogo e da espada.
O autor nos revela como o “estereótipo branco” acabou por se tornar alvo de dominação do colonizado pelo colonizado. O negro ao ascender socialmente se despe da sua cultura e passa a se comportar e a tratar seus irmãos como aquele branco covarde, numa afirmação de superioridade. Como podemos ver no conto “O sabor do fruto”, temos, nesse conto, uma menina negra que é criada pelos padrinhos, vai morar em Bruxelas e educada à moda francesa, passa a falar francês. Quando volta pra casa, não consegue mais se alimentar com a comida que a mãe faz, mas, mesmo assim, torna-se o orgulho do pai porque aprendeu a falar a língua do dominador como no trecho: Che! Não fala estrangeiro minha filha assim ninguém te apercebe _ lembrou o pai, no fundo vaidoso até por ela falar estrangeiramente.
Ainda nesse mesmo conto, o autor revela como o negro acabava perdendo sua identidade cultural, até seu nome era considerado sem valor. Quando aconteceu o povoamento branco em Angola, os padres que iam para o território em nome da Igreja, em suas investidas para a evangelização dos negros, batizavam os nativos, dando-lhes nomes de branco, pois isso representava um crescimento cultural e uma aceitação maior do negro na sociedade civilizada do branco. Assim, no trecho do conto podemos ver que o nome da menina negra que fala francês foi mudado: Jeanne Marguerite Kolokota foi o nome que puseram então. A mãe ainda que falou, falou, não podia ser, o nome tinha de ser da avó, terra lhe seja leve, sonhava sempre com a velha. .A menina negra agora se sente superior às outras meninas angolanas: Todas as miúdas do bairro foram lá.De manhã Jeanne Kolokota lhes deu só no cumprimento de olá. Friamente.

Nos contos do livro Dizanga dia Muenhu, encontramos um autor que se apropriou da Língua do colonizador, trazendo marcas da língua do colonizado, reinventando a sintaxe numa linguagem com musicalidade e ritmo que a língua do colonizador não consegue expressar.
No conto Meu toque, o autor denuncia a situação social na qual estava inserido o povo angolano, principalmente, as mulheres que eram obrigadas a trabalhar para o sustento da família. Na maioria das vezes, as mulheres se submetiam à prostituição como é citado no trecho: Kapritkitu mãe dele munhungava[5] no Maçal. Pula[6] que precisava alimentar prazer, se deu encontro com Maria do beco. A prostituição era uma saída para a sobrevivência dos filhos, para não morrerem de fome: Munganhar [7] o corpo é pelejar contra a fome. A mulher angolana era sobrecarregada em seu papel na família, pois, em muitos casos, os homens precisavam trabalhar na agricultura ou eram presos,elas, então, tornavam-se mães e pais dos filhos. Mãe negra é pai e mãe.

Nos contos de Dizanga dia Muenhu, vemos, com freqüência, a figura de crianças, embora elas representem a esperança de uma vida nova, a inocência, a pureza da vida, elas também denunciam que, às crianças angolanas não era dado o direito de ser criança e gozar de sua infância, como nos diz o conto Meu toque: Meu toque era o grito da fome, ,a luta dos homens pequenos empurrados cedo da vida dura ou no trecho do conto Mesene[8]: A compreensão da vida amadurecida nas muximas[9] kandengues[10]. A infância angolana era bem diferente da infância dos meninos portugueses, os pequenos negros eram expostos a todo tipo de maus tratos, desde pequenos presenciavam a violência cultural, física e psicológica que seu país sofria, viam os acontecimentos hediondos, às vezes, o pai, às vezes, a mãe, outras vezes, algum vizinho. Tornava-se até comum e, de alguma forma, as crianças acabavam se acostumando com a realidade cruel em que viviam.

O conto Nga Fefa Kajinvunda[11] revela que os negros não podiam falar na sua própria língua como no trecho: Nos Kimbundos[12] delas escondiam toda a fúria contra o colonialismo que não podiam falar na língua da senhora abertamente. Aos negros não era concedida a liberdade para se expressar na sua língua materna, pois sua língua como toda sua cultura era inferiorizada pelo branco, mas a proibição de falar na língua materna era também uma arma usada pelo branco sempre na tentativa da enfraquecer o povo que sem poder se comunicar acabava se calando.
Outra questão levantada no livro Dizanga dia Muenhu de Boaventura Cardoso é sobre a exclusão geográfica a qual os negros eram submetidos, pois, nas cidades, havia lugar apenas para os brancos, aos negros era dada a periferia da cidade; lá viviam excluídos e apertados nos musseques[13]. Os musseques eram lugares miseráveis, com pessoas que viviam à margem da sociedade onde negócios de becos aconteciam, o musseque era lugar pra todo tipo de gente viver: movimento de pessoas, quitandeiras gritando, ladrões cafricam[14] ,bichas[15] de fome estalando nervos, kandengues[16] jogam alegres, como se
pôde observar nesse trecho do conto O socialismo Kima Kiahi[17] e no trecho do conto Santo Rosa : Comboio velocidade sem ritmo . Estação dos Musseques. Confusão, gritos, mundo nosso marginado.

O autor do livro Dizanga Dia Muenhu não somente escreve o livro num propósito de relatar fatos ou de denunciar os acontecimentos sofridos por seu povo; ele, também, faz de sua literatura um veículo combativo das injustiças e um clamor à luta, como se pode depreender de trecho do conto A família Pompeu e Costa: __Um momento, um momento __leitura prosseguindo: é preciso coragem, a revolução é assim... Existia uma extrema necessidade de ir à luta, lutando contra o colonizador, armar a revolução e atuar nela, guerrear de verdade e não ficar apenas no discurso, na reclamação: A lágrima não faz a luta.

4.Conclusão

Podemos concluir que o livro Dizanga Dia Muenhu nos traz uma nova perspectiva da História. Embora ainda recente para deslumbrarmos toda a beleza e graça da Literatura Africana, esse livro contribui, num primeiro momento, para entendermos como a Arte Literária pode provocar mudanças na História Tradicional. A literatura preenche lacunas que antes estavam vazias, denuncia fatos que jamais a historia tradicional, comprometida com o poder, poderia denunciar, levanta questionamentos que antes nunca foram pensados e ainda compromete a história tradicional numa busca pelo que não foi contado.
Boaventura Cardoso é um brilhante contador de histórias, mas numa visão nova, numa construção literária inovadora e instigante que faz o leitor entender e revoltar-se com o que lê, num movimento de interação com sua obra, fazendo uma construção de extrema valorização da sua raça, de sua gente.

A Literatura Africana ainda tem muito a contar e, através de cada obra escrita por escritores africanos, poderemos compreender a imensidão da falta de respeito do colonizador ao invadir e dominar os povos africanos. Se a África hoje é uma terra conhecida por suas misérias, isso se deve, em grande parte, ao povo branco que não soube respeitar as diferenças de cultura, de raça, de cor, mas, de qualquer maneira, a África hoje será conhecida pela sua produção Literária que valoriza sua terra, sua língua, numa busca incansável pelos fatos ainda não relatados. A África hoje denunciará suas injustiças e contará uma nova história, fazendo o homem civilizado entender que o progresso, que governos constituídos, reis, armas, guerras não fazem homens civilizados, mas que a verdadeira civilidade está em aprender a respeitar as diferenças e crescer com elas num respeito mútuo entre as nações.

5.BIBLIOGRAFIA

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Benjamin: os cacos da história. São Paulo: Brasiliense, 1982.
BENJAMIM, Walter.Sobre arte, técnica, linguagem e política.Lisboa: Relógio D’água, 1992.
SALGADO Maria Teresa, SEPULVEDA (Coord).África e Brasil: Letras e Laços.RJ: Atlântica, 2000.
SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro (Coord), Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX, Angola, Kilombelombe,2000
CARDOSO, Boaventura, Dizanga dia Muenhu, São Paulo: Ática, 1992.
PETER Burke, A escola dos Annales (1929-1989) –A revolução Francesa da Historiografia.São Paulo: Unesp. 1997
Internet: www.angola.com.br




[1] CARVALHO, Ruy Duarte. Noção geográfica proposta para quatro vozes. In SECCO ( Coord. ). Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX. Angola. Luanda: Kilombebe,2000.
[2] Amigo
[3] Bebida ilegal caseira
[4] prostituta
[5] prostituía-se
[6] homem branco
[7] prostituir
[8] professor
[9] coração
[10] criança,muxima kandengues seria sentimento,coração de criança
[11] dona Josefa,a zaragateira
[12] língua falada pelo povo Kimbundo que havia no norte de Angola,ao norte do rio Kuanza
[13] bairro popular urbano e suburbano , semelhante a favela.
[14] roubar
[15] fila
[16] crianças
[17] o que é socialismo
(((Minha monografia dos Estudos Científicos sobre a cultura africana)))
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