Os mortos perguntam

Os mortos perguntam
Nos rumos perdidos dos ventos trocados,
Todos os rumos,
Nos fundos das piras dos mortos cremados,
Todos os fumos
de todas as piras...
Nas iras dos mares
Que beberam sangue
Todas as iras...
Na ânsia enlutada de todos os lares
Vazios de esperança
Todas as ânsias
De todos os lares...
Nos sexos sangrentos das virgens violadas
Os farraposa sangrar
De todos os sonhos que homens sonharam
E homens violaram...
Em todas as dores dos vivos da terra
todas as dores dos mortos da guerra...
E os rumos perdido
se os corpos ardidos,
e as iras inúteis,
e as ânsias caladas,
E os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas,
E todas as dores
de todos os mortos que a guerra matou,
e todos os lutosde todos os vivos
que a guerra enlutou,
Perguntam,
perguntam,
perguntam
a todos os ventos
a todos os mares
às roupas de luto de todos os lares,
Se valeu a pena......
Os mortos perguntam...
Mas os ventos trocam-se,
o mar não serena,
as viúvas continuam a chorar,
e os mortos não páram de perguntar
se valeu a pena......
Mas a esperança é longa
é bela de agarrar no fundo dos martírios...
Os mortos perguntam,
Os mortos protestam......
Irmãos, os braços são magros,
mas longos,
Longos da ânsia de querer......
A pergunta é grande e a força é pequena,
mas só nós podemos,
Irmãos, responder,
Se valeu a pena...



O poema escrito em Língua Portuguesa pelo poeta africano António Neto em 1948 dialoga com o poema Mar português e eu aqui nesse dia como em qualquer outro, fico desejando o dia em que não haja mais o dia da consciência negra, nem cotas em universidades para negros, nem dia algum que nos lembre de alguma minoria, de algum grupo excluído ou abandonado. Afinal a humanidade não deveria ter cor. Ainda precisamos evoluir e muito...
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