fonte: Metrópolis - uol
FLIP 2008
fonte: Metrópolis - uol
Canção para Luanda
A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nos:
- Luanda onde está?
Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos
- Xê
mana Rosa peixeira
responde?
- Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!
"Ola almoço, ola almoçoéé
matona calapau
ji ferrera ji ferrerééé"
- E você
mana Maria quitandeira
vendendo maboque
os seios-maboque
gritando
saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
"maboque, m'boquinha boa
dóce dócinha"
- Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!
Zefa mulata
o corpo vendido
batom nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo-cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?
Mana Zefa mulata
o corpo-cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!
- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
trator derrubou?
Meninos das ruas
caçambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
- Luanda onde está?
Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos
caídos
mostraram o coração:
- Luanda está aqui!
José Luandino Vieira
(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)
Lei da cultura africana e afro-brasileira: combate à discriminação ou aumento da segregação?
www.unicef.org
Em 2003, foi lançada a lei federal nº 10.639, que modificou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de cultura africana e afro-brasileira nas escolas públicas e privadas de todos os estados brasileiros. Apesar de o fato ter sido considerado importante por movimentos de luta dos negros em todo o país, existe uma discussão em torno da validade dessa proposta: ela realmente ajudaria a diminuir o preconceito desde a sala de aula, ou sairia pela culatra e aumentaria ainda mais a segregação, ao destacar a história do povo negro de outros temas curriculares?
Renato Ferreira, advogado e coordenador do Programa de Políticas da Cor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), lista alguns dos seus possíveis efeitos positivos quanto à redução da discriminação. "A lei visa fazer um resgate histórico que é importante não só para o negro mas para a sociedade brasileira como um todo. Esse é o grande ponto. As pessoas pensam que a lei está retificando a história, e não é. A gente está querendo dar oportunidade para as pessoas negras conhecerem um pouco melhor o Brasil, conhecerem um pouco melhor a sua história, e as pessoas brancas sobretudo; porque você não vence o preconceito e a discriminação com um grupo só sabendo, você só vence quando todos os grupos ficarem sabendo".
Ao falar do ensino oferecido nas escolas brasileiras, Ferreira aponta uma falha que, segundo ele, poderia ser reduzida caso a lei fosse aplicada. "A nossa matriz de conhecimento, que é o que chega às escolas, é essencialmente eurocêntrica. A gente estuda História da Europa, História dos Estados Unidos, e é isso que a gente reproduz, é isso que a gente tende a achar importante. Os outros Estados e aquilo que eles produziram, os seus mitos, as suas crenças, para nós são descartáveis".
Ulisses Martins, que dá aulas de História em escolas particulares do Rio de Janeiro, acredita que a proposta da lei de ensino afro pode aumentar ainda mais a discriminação. "Por que o ensino da cultura afro-brasileira especificamente? E os outros povos que contribuíram para a formação da identidade nacional? Ou foram somente os negros os responsáveis por isso?", questiona. "É exatamente aí que mora o risco de aumento da segregação. Os outros grupos podem se sentir desprestigiados e exigirem o estudo de suas culturas também. E então o que faremos? Criaremos novas disciplinas? Parece que as decisões são tomadas sem que se pense nos alcances que elas podem ter".
Martins diz que lhe causa estranheza o fato de a lei não focar também os índios. "Por que deixar os índios de fora? Querem usar a exploração que o negro sofreu como justificativa para a criação dessa lei; o que faremos com os índios que foram dizimados e perderam suas terras, foram aculturados e, também obrigados a trabalharem como escravos?".
Ferreira concorda com Martins, e acredita que uma outra lei precisa ser criada para contemplar a questão indígena. "O grande problema não é incluir a história dos negros, é deixar de incluir a história dos indígenas", analisa, complementando que uma das razões para os indígenas terem ficado de fora da lei no. 10.639 pode ter sido uma representação não tão grande, no Congresso, à época de sua aprovação.
Apesar de acreditar que outras culturas merecem igual destaque ao que seria dado à cultura negra com a aplicação da lei, Martins destaca que os riscos podem ser minimizados caso a história e cultura afro sejam inseridas dentro do currículo da disciplina de História. "A criação de mais uma disciplina não me parece o caminho ideal. Que essa valorização da cultura não seja apenas da afro-brasileira e seja de outro jeito, porque essa imposição não condiz com a realidade do ensino nacional. Os alunos são muito desinteressados e mais uma disciplina não ajuda".
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| www.yorku.ca |
Martins se opõe ainda ao sistema de cotas para estudantes originários de escolas públicas, especialmente negros e indígenas. "O certo a se fazer é melhorar o ensino público. Assim, as oportunidades e o preparo para o ingresso nas universidades públicas serão os mesmos, tanto para os alunos das escolas particulares quanto para os alunos de escolas públicas. A criação das cotas é uma ação assistencialista que não tem o alcance necessário para resolver o problema".
Renato Ferreira, lembrando que até hoje pouco se fez para combater as heranças negativas da escravidão, explica seu ponto de vista em relação a essas críticas. "O Brasil não adotou políticas públicas para promover a cidadania dos ex-escravos e seus descendentes. Obteve, com isso, uma discriminação estruturada". Uma solução para o já enraizado problema seriam as políticas afirmativas. "São medidas de inclusão que, promovendo direitos de grupos historicamente excluídos, podem reduzir a discriminação, promovendo a justiça social. Isso é importante para todos os brasileiros. A política de cotas, a lei 10.639, entre outras medidas, são espécies de ação afirmativa, e encontram assento na Constituição da República".
A implementação da lei
Ferreira destaca que para que a lei de cultura africana e afro-brasileira seja aplicada são fundamentais recursos e políticas públicas. "E isso no nosso país é um pouco complicado", destaca, dando as diretrizes que em sua opinião devem ser tomadas. "A responsabilidade pela aplicação da lei, a meu juízo, deve ser do MEC e das secretarias estaduais e municipais de educação, que a elas cabe desenvolver e executar as políticas de educação no país, em primeiro plano".
Os professores, que em sua formação também não receberam aulas voltadas em especial para a cultura africana e suas reais influências no Brasil, vêm comentando que não sabem qual a melhor maneira de apresentar alguns tópicos relacionados a essa história e cultura em sala de aula. Esse pode ser mais um obstáculo à prática do que a lei estabelece.
"Já se percebe uma preocupação com a história africana nos cursos de graduação, e a procura por pós-graduação nessa área também aumentou, mas ainda é muito cedo para se dizer que os professores estão preparados para cumprir a lei", diz Martins, explicando como imagina que se dará a preparação dos professores. "Alguns irão procurar por conta própria, mas acho que as instituições podem oferecer o incentivo financeiro para que seus professores de História façam uma pós-graduação em História da África".
Ferreira afirma que a idéia de fazer cursos de capacitação é muito boa, garantindo que quem leciona tem interesse em se especializar. "Se lançam um edital dizendo que os professores do estado ou do município que queiram estudar sobre História da África têm que se inscrever, muita gente se inscreve, muita gente quer fazer. Mesmo sem nenhum tipo de abono por isso. As pessoas são simpáticas ao tema porque sabem que é necessário".
Segundo o advogado, alguns cursos já estão em andamento, ministrados por ONGs e pelo MEC. Ele acredita ser interessante que professores do Ensino Fundamental de todas as matérias se capacitem, e entre as disciplinas do Ensino Médio destaca Português, Literatura e História, mas acredita que quem dá aulas de outras disciplinas também pode ser instruído.
Na opinião de Martins, é preciso ir com calma e repensar ainda vários pontos referentes à lei. Ele levanta questionamentos. "Ainda acho muito importante que se discuta muito mais a validade dessa lei, seus prós e contras, e que se amplie bastante a discussão, para que ninguém seja pego de surpresa. Será que realmente é necessária? Não há outros meios de se divulgar a cultura e história afro-brasileiras? Pensemos pois para não precisarmos resolver problemas mais graves futuramente".
FONTE: Opinião e notícia
Cultura Africana (Traduzido por Marcelo Castro)
FONTE: Mais críticas sobre Cultura Africana (Traduzido por Marcelo Castro)
Cultura Africana


A África é um continente de grande diversidade cultural que se vê fortemente ligada à cultura brasileira. Pode-se perceber grandes diferenças em suas raças, origens, costumes, religiões e outros.
Os africanos prezam muito a moral e acreditam até que esta é bem semelhante à religião. Acreditam também que o homem precisa respeitar a natureza, a vida e os outros homens para que não sejam punidos pelos espíritos com secas, enchentes, doenças, pestes, morte, etc. Não utilizavam textos e nem imagens para se basearem, mas faziam seus ritos a partir do conhecimento repassado através de gerações antigas.
Seus ritos eram realizados em locais determinados com orações comunitárias, danças e cantos que podem ser divididos em: momentos importantes da vida, integração dos seres vivos e para a passagem da vida para a morte. Na economia, trabalhavam principalmente na agricultura, mas também se dedicavam à criação de animais e de instrumentos artesanais.
Sua influência na formação do povo brasileiro é vista até os dias atuais. Apesar do primeiro contato africano com os brasileiros não ter sido satisfatório, estes transmitiram vários costumes como:
- A capoeira que chegou na época da escravização e era utilizada na África como luta defensiva já que não tinham acesso a armas de fogo;
- O candomblé que também marca sua presença no Brasil, principalmente no território baiano onde os escravos antigamente eram desembarcados;
- A culinária recebeu grandes novidades africanas como o leite de coco, óleo de palmeira, azeite de dendê e até a feijoada, que se originou no período em que os escravos misturavam restos de carne para comerem.
Por Gabriela Cabral
Equipe Brasil Escola
Noite
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Presença Africana
E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras...
A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
Salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu
e corpo musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
Longa história inconsequente...
Minha terra...
Minha, eternamente...
Terra das acácias, dos dongos,
dos cólios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!
Alda Lara
Dádiva
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.
Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.
...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.
Costa Andrade ( Angola)
Que África escreve o escritor africano?
por Mia Couto
O tema desta cerimónia é a relação do escritor com a luta por um mundo mais humano e democratizado. A pergunta poderia ser: qual é a responsabilidade do escritor para com a democracia e com os direitos humanos? É toda. Porque o compromisso maior do escritor é com a verdade e com a liberdade. Para combater pela verdade o escritor usa uma inverdade: a literatura. Mas é uma mentira que não mente.
O escritor, porém, em outro compromissos. Uma das obrigações do escritor africano é estar disponível para, em certas circunstâncias, deixar de ser escritor e não se pensar "africano".
Explico-me: o escritor é um ser que deve estar aberto a viajar por outras experiências, outras culturas, outras vidas. Deve estar disponível para se negar a si mesmo. Porque só assim ele viaja entre identidades. E é isso que um escritor é - um viajante de identidades, um contrabandista de almas. Não há escritor que não partilhe essa condição: uma criança de fronteira, alguém que vive junto à janela, essa janela que se abre para os territórios da interioridade.
O nosso papel é o de criarmos os pressupostos de um pensamento mais nosso, para que a avaliação do nosso lugar e do nosso tempo deixe de ser feita a partir de categorias criadas pelos outros. E passarmos a interrogar aquilo que nos parece natural e questionável: conceitos como os direitos humanos, a democracia, a africanidade. É esta nossa relação com África que eu gostaria de aqui interrogar. Porque essa "africanidade" erguida como uma identidade tem sido objecto de sucessivas mistificações.
Alguns se apressam a encontrar uma essência para aquilo a que chamam de "africanidade". Na aparência, eles estão ocupados em encontrar uma raíz para o orgulho de serem africanos. Mas, afinal, eles se assemelham à ideologia colonial. África não pode ser reduzida a uma entidade simples, fácil de entender e de caber nos compêndios de africanistas. O nosso continente é o resultado de diversidades e de mestiçagens.
Quando falamos de mestiçagens falamos com algum receio como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos "pura". Mas não existe pureza quando se fala da espécie humana. E se nos mestiçamos significa que alguém mais, do outro lado, recebeu algo que era nosso.
Defensores da pureza africana multiplicam esforços para encontrar essa essência. Alguns vão garimpando no passado. Outros tentam localizar o autenticamente africano na tradição rural. Como se a modernidade que os africanos estão inventando nas zonas urbanas não fosse ela própria igualmente africana. Essa visão restrita e restritiva do que é genuíno é, possivelmente, uma das principais causas para explicar a desconfiança com que é olhada a literatura produzida em África. A literatura está do lado da modernidade. E nós perdemos "identidade" se atravessamos a fronteira do tradicional: é isso que dizem os preconceitos dos caçadores da virgindade étnica e racial.
A oposição entre tradicional - visto como o lado puro e não contaminado da cultura africana - e o moderno é uma falsa contradição. Porque o imaginário rural é também produto de trocas entre mundos culturais diferentes. A maior parte dos jovens da cultura rural do meu país sonham ser Michael Jackson ou Eddy Murphy. Sonham, numa palavra, ser negros americanos.
"Eis-me aqui", escreveu Senghor, "tentando esquecer a Europa no coração do Senegal". O poeta e estadista senegalês nunca conseguiu esse esquecimento. Ele próprio foi uma ponte entre os dois continentes. Nem de outro modo poderia ser. Esquecer a Europa não pode ser eliminar os conflitos interiores que moldaram as nossas próprias identidades. A Europa estava dentro do poeta africano e não podia ser esquecida por imposição.
Entre o convite ao esquecimento da Europa e o sonho de ser americano a saída só pode ser vista como um passo para a frente. Os intelectuais africanos não têm que se envergonhar da sua apetência para a mestiçagem. Eles não necessitam de corresponder à imagem que os mitos europeus fizeram deles. Não carecem de artifícios nem de fectiches para serem africanos. Eles são africanos assim mesmo como são, urbanos de alma mista e mesclada, porque África tem pleno direito à modernidade, tem direito a assumir as mestiçagens que ela própria iniciou e que a tornam mais diversa e, por isso, mais rica.
É preciso sair dessa armadilha, e isso só pode ser feito por esses africanos que encaram sem medo a sua pertença ao mundo mestiço. Alguns dos chamados africanistas, por mais que esbravejem contra conceitos chamados europeus, continuam prisioneiros desses mesmos conceitos. Nem que seja para lhes dar importância, ainda que essa importância seja concedida pela negativa. Não se trata de encontrar identidade em recuos para um pureza ancestral. Os mais ferozes defensores do nacionalismo cultural africano estão desenhando casas do avesso mas ainda no quadro da arquitectura do Outro, daquilo que chamamos o Ocidente. De pouco vale uma atitude fetichista virada para os costumes, o folclore e as tradições. A dominação colonial inventou grande parte do passado e da tradição africana. Alguns intelectuais africanos, ironicamente, para negarem a Europa acabaram abraçando conceitos coloniais europeus.
De facto, a obsessão de classificar o que é e não é "africano" nasce na Europa. Por essa preocupação caminharam a etnografia e a antropologia, disciplinas que, até recentemente, procuravam identificar essências em lugar de processos. Os descobridores de identidades pareciam-se com os navegadores do século XVI: ansiosos, uns, por baptizar territórios que, afinal, já há muito estavam baptizados; outros, apressados em nomear categorias populacionais cujos contornos nem mesmo eles conheciam: as tribos, as etnias, os clãs.
Pense-se, por exemplo, na produção cultural dos africanos. Em lugar de valorizar a diversidade dessa produção e olhar o livro como produto cultural substitui-se a apreciação literária por uma visão mais ou menos etnográfica. A pergunta é - quanto este autor é "autenticamente africano"? Ninguém sabe exactamente o que é ser "autenticamente africano". Mas o livro e o autor necessitam ainda de passar por essa prova de identidade. Ou de uma certa ideia de identidade.
Exige-se a um escritor africano aquilo que não se exige a um escritor europeu ou americano. Exigem-se provas de autenticidade. Pergunta-se até que ponto ele é etnicamente genuíno. Ninguém questiona quanto José Saramago representa a cultura de raiz lusitana. É irrelevante saber se James Joyce corresponde ao padrão cultural desta ou daquela etnia europeia. Por que razão os autores africanos devem exibir tais passaportes culturais? Isso acontece porque se continua a pensar a produção destes africanos como algo do domínio antropológico ou etnográfico. O que eles estão produzindo não é literatura mas uma trangressão ao que é tido como tradicionalmente africano.
O escritor não é apenas aquele que escreve. É aquele que produz pensamento, aquele que é capaz de engravidar os outros de sentimento e de encantamento.
Mais do que isso, o escritor desafia os fundamentos do próprio pensamento. Ele vai mais longe do que desafiar os limites do politicamente correcto. Ele subverte os próprios critérios que definem o que é correcto, ele questiona os limites da razão.
Os escritores moçambicanos cumprem hoje um compromisso de ordem ética: pensar este Moçambique e sonhar um outro Moçambique. Correm o risco, como todos os criadores de todos os países, de serem devorados por essa mesma pátria que eles ajudaram a libertar.
Passamos um período em que os nossos heróis acabam sempre mortos - Eduardo Mondlane, Samora Machel, Carlos Cardoso - para um outro tempo em que os heróis já nem sequer nascem. Estamos aguardando pelo renovar de um estado de paixão que já esperimentámos, esperamos pelo reacender do amor entre a escrita e a nação enquando casa feita para sonhar. O que queremos e sonhamos é uma pátria e um continente que já não precise de heróis.
Mia Couto
Julho 2002
Lá no Água Grande
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
[Alda do Espírito Santo - Escritora - Cabo Verde]
O Moringue
E os pés caminhantes sobre a areia
O sol que traz o vento e afasta o peixe
Ele não esquentará a água do moringue.
Não há sol no canto desta casa
Há sombras dos luandos que fazem as paredes
A areia do chão traz a frescura da terra
Os caniços do luando têm a frescura
Que trouxeram das terras de Cabíri
Quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
E a garganta vem a arder como se era sal
A água do moringue sabe-nos como nada mais.
E, a quem nos pede, com o coração alegre,
Nós a oferecemos, nas canecas de esmalte.
[Henrique Guerra - poeta Angolano]
Boaventura Cardoso
bibliografia:
O início da sua carreira literária data de 1967, com a publicação de vários contos e poemas nos jornais luandenses.
A sua obra resume-se em três livros de contos e dois romances, nomeadamente: Dizanga dia Muenhu, O Fogo da Fala, A Morte do Velho Kipacaça (conto) e O Sino do Fogo, Maio, Mês de Maria ( romance).
Com efeito, é no plano da linguagem que Boaventura Cardoso alcança resultados que o inscrevem por direito próprio na galeria dos autores mais representativos da sua geração e da literatura angolana. Os registos de discursos que atravessam as suas histórias, numa deliberada adequação do espaço físico e social à modulação fónico-linguística das personagens, comportam além do labor estilístico, uma estrutura de superfície textual com construções sintácticas que apontam para a existência de sujeitos textuais responsáveis por tais acções enunciativas, onde o autor introduz estratégias discursivas da oralidade. Aí subjazem igualmente estilos de comportamento e uma figuração léxico-gramatical corroborada pelos nomes hipocorísticos das personagens.
Esse aparente minimalismo textual que a elipse permite, esconde paradoxalmente um esforço em dar mais densidade aos contornos não-verbais e às diversas circunstâncias envolventes, isto é, os chamados não-ditos culturais. Do ponto de vista sociológico, a estratégias de Boaventura Cardoso, à semelhança de Luandino Vieira, inspira rigorosamente à denúncia de clivagens e variações no funcionamento da língua portuguesa em Angola. A diglossia imprópria é para este autor um importante instrumento. De tal modo que todos os textos parecem levantar a problemática da língua literária, relativizando-a no contexto angolano. Daí que a acção do autor se traduza na exploração das virtualidades do sistema linguístico. Os resultados que alcança no plano formal, deixam de ser suficientes para explicar tais níveis de realização,exigindo-se ainda a convocação do projecto estético subjacente. Mas semelhante constatação só é possível se se tiver em atenção a situação de discurso em que os textos são criados.
FONTE: escritores angolanos
Os mortos perguntam
Nos rumos perdidos dos ventos trocados,
Todos os rumos,
Nos fundos das piras dos mortos cremados,
Todos os fumos
de todas as piras...
Nas iras dos mares
Que beberam sangue
Todas as iras...
Na ânsia enlutada de todos os lares
Vazios de esperança
Todas as ânsias
De todos os lares...
Nos sexos sangrentos das virgens violadas
Os farraposa sangrar
De todos os sonhos que homens sonharam
E homens violaram...
Em todas as dores dos vivos da terra
todas as dores dos mortos da guerra...
E os rumos perdido
se os corpos ardidos,
e as iras inúteis,
e as ânsias caladas,
E os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas,
E todas as dores
de todos os mortos que a guerra matou,
e todos os lutosde todos os vivos
que a guerra enlutou,
Perguntam,
perguntam,
perguntam
a todos os ventos
a todos os mares
às roupas de luto de todos os lares,
Se valeu a pena......
Os mortos perguntam...
Mas os ventos trocam-se,
o mar não serena,
as viúvas continuam a chorar,
e os mortos não páram de perguntar
se valeu a pena......
Mas a esperança é longa
é bela de agarrar no fundo dos martírios...
Os mortos perguntam,
Os mortos protestam......
Irmãos, os braços são magros,
mas longos,
Longos da ânsia de querer......
A pergunta é grande e a força é pequena,
mas só nós podemos,
Irmãos, responder,
Se valeu a pena...
O poema escrito em Língua Portuguesa pelo poeta africano António Neto em 1948 dialoga com o poema Mar português e eu aqui nesse dia como em qualquer outro, fico desejando o dia em que não haja mais o dia da consciência negra, nem cotas em universidades para negros, nem dia algum que nos lembre de alguma minoria, de algum grupo excluído ou abandonado. Afinal a humanidade não deveria ter cor. Ainda precisamos evoluir e muito...
ANGOLA, DE TERRA DA GRANDE PROMESSA À TERRA DAS GRANDES MISÉRIAS
1. Introdução
Este é o continente
um corpo indestrutível de acidentes
o chão que permanece das batalhas
a terra exposta para além das chagas
o ventre a renovar-se em gerações
erguidas da derrota.
Este é o chão aberto ao sol
esta é a voz de que se enfeita o pão
este é o leito manso para a vitória.
Ruy Duarte de Carvalho[1]
A construção do conhecimento não se dá de forma isolada e descontextualizada; é necessário que a busquemos nas vivências diárias, na realidade pessoal e numa incansável busca pelo não dito, não revelado e não escrito.
Com base em teóricos como Walter Benjamim, Marc Bloch e Lucian Febvre, desconstrutores e questionadores da história tradicional, estamos diante do impasse daquilo que nos pode revelar um novo enfoque da história, o que se chamou “história nova” ou “história dos vencidos”.
Na região do Vale do Paraíba no estado do Rio de Janeiro, deparamos-nos com velhas fazendas de café, grandes impérios construídos com o sofrimento de negros africanos, trazidos ao Brasil, na época da escravatura. Como revisitar essa história? Acostumamos-nos com a história contada nos livros e com a história positivista e tradicional.
Visitando o Centro de Documentação Histórica de Vassouras, no Rio de Janeiro, revivemos um pouco da humilhação e do tratamento “coisificado” dado aos negros, na época da escravidão, através de fatos hediondos relatados em antigos escritos guardados no CDH. Folhear cada velha página traz, ao leitor sensível, a consciência do total desconhecimento da nossa história, seguida do questionamento do porquê a conhecemos tão pouco e, mais, por que apenas a conhecemos com o olhar do dominador, sob o ponto de vista cronológico, linear e manipulado.
Numa visita à Fazenda Santa Clara, em Rio Preto, Minas Gerais, o relato que antes era conhecido nos escritos do CDH e que permeavam o imaginário, tornou-se instigantemente real. Presenciar a senzala vazia, antes ocupada com a dor, o suor e o sangue, foi trazer à tona a idéia de repensar a história tradicional, que revisitada no século XXI, faz-nos compreender as injustiças cometidas à época. Andar pela velha fazenda de Santa Clara, onde seres humanos foram maltratados, era olhar a história no que ela não foi contada, uma história “negra”, não por causa das peles negras dos homens, mulheres e crianças que ali viveram vidas desumanas, mas por causa da imensidão de perguntas sem respostas, por uma multidão de vozes emudecidas e pelas ruínas imorais, sustentáculos da nossa história.
Revisitar a história com um novo olhar é, sobretudo, desvencilhar-se do “presente”, fato imprescindível para vê-la não como ela nos foi apresentada e, sim, como ela foi vivida. Tanto no CDH de Vassouras, como na Fazenda de Santa Clara, um ponto culminante sobressai das visitas realizadas: conhecendo hoje os conceitos propostos pela Nova História, é impossível ser apenas figurante da nossa história e deixar que ela continue calando a história das minorias, dos menos favorecidos, das favelas, dos “musseques”. Entrar na história é preocupar-se com as entrelinhas, é desprender-se dos preconceitos, das pseudojustificativas, é arrancar dos olhos a venda que o colonizador nos impôs, é ter curiosidade daquilo que foi calado, é escarafunchar as ruínas, é olhar o que foi escondido debaixo dos grandes tapetes do tempo.
2-Angola, DE TERRA DA GRANDE PROMESSA À TERRA DAS GRANDES MISÉRIAS.
Em corações tristes
Eu vejo
As mãos esculturais
Dum povo eternizado dos mitos
Inventados nas terras áridas da dominação
As mãos esculturais dum povo que constrói
Sob o peso do que fabrica para se destruir
Eu vejo além África
Amor brotando virgem em cada boca
Em lianas invencíveis da vida espontânea
E as mãos esculturais entre si ligadas
Contra as catadupas demolidoras do antigo
Além deste cansaço em outros continentes
A África viva
Sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
E rosas e pão
E futuro.
Agostinho Neto
Angola situa-se na costa ocidental da África e possui uma rede hidrográfica privilegiada ao nível do continente; tem como rios principais o Kwanza, o Zaire e o Cunene. O país hoje tem como língua oficial o Português, uma herança dos tempos coloniais, porém, há algumas línguas nacionais como: UMBUNDO, KIMBUNDU, KIKONGO entre outras. A população é, predominantemente, cristã e a religião Católica é a mais difundida.
O território angolano foi habitado desde a idade da pedra, como foram encontrados vestígios de uma arte rupestre ao longo do litoral do país, acredita-se que as migrações de povos mais evoluídos, os bantu, vindos do norte africano e que foram responsáveis pela introdução de novas técnicas em Angola, como a metalurgia, a cerâmica e a agricultura, criaram, então, as primeiras comunidades agrícolas. Por volta de 1400, surgiram dois grandes sistemas: o reino do Congo e o reino de Ndongo. O reino de Ndongo era constituído pela etnia Kimbundo e a seu rei era dado o título de Ngola, daí a origem do nome do país.
A presença de Portugal em Angola deu-se a partir do século XV(1482), quando D. João II subiu ao poder e desejou alongar extraordinariamente os domínios portugueses além-mar. O reino de Ngola se manteve hostil à presença dos dominadores. Entre 1605 a 1641, ocorreram grandes campanhas militares dos colonizadores, numa tentativa de implantar o domínio político e territorial em Ngola. Os chefes Ngolas resistiram, entre eles se destacou a liderança da rainha Nginga que tinha grande habilidade política.
Angola foi uma colônia portuguesa invadida e dominada por muitos anos. Antes era ocupado por seu povo livre, dono da terra, povo alegre, guerreiro, que vivia ao seu modo, no comportamento de sua gente e acabou por se transformar num lugar de dor e degradação.
Angola foi a terra da “grande promessa” onde o português com seu poderio militar, mercantilismo e com uma operação ideológica “a dilatação da fé e do império” impôs seu povoamento “branco”, usurpando a terra e o seu povo. O povo angolano passou a viver sob o jugo colonial do dominador que, no início, era visto como um salvador que traria uma melhoria pra suas vidas, porém, a máscara da bondade logo se desfez, pois os negros passaram a ser tratados como coisas, usados e vendidos como propriedades do branco, além de serem considerados como seres sem alma, sem vida própria, que necessitavam de uma nova língua, uma nova religião, um novo nome e uma nova cultura.O negro era como um boneco de barro a quem o português, na sua atitude humanista, soprar-lhe-ia o “fôlego da vida”.
Assim, o povo foi perdendo sua característica de povo, foi se dividindo, dissipando-se. As comunidades viravam senzalas, os portos, saídas para os escravos, onde as torturas e os maus tratados eram comuns.O tráfico de escravos e o comércio costeiro cresciam, toda exploração tanto do trabalho quanto das riquezas da terra fluíam com um único objetivo: enriquecimento do colonizador e financiamento de novos “povoamentos brancos”, tudo em nome do Império.
O povoamento branco em Angola não se deu de forma pacífica, mas o dominador soube muito bem persuadir o colonizado e dividir os negros, dando a uns privilégios e a outros, castigo e morte. A penetração do interior dos territórios contava sempre com a força bélica de Portugal que dizimava tribos, povos e etnias, aniquilado-as ou conduzido-as à escravatura. É incontável o número do extermínio gerado pelos “bravos do infante” nessas missões de “fé”, porém, fizeram-no a poder da fraqueza e do sofrimento alheio, justificando sua barbárie em nome de um rei, de um deus e de uma suposta superioridade cultural do povo português.
A ocupação de Angola recebeu um impulso redobrado, sobretudo, em meados do século XIX, quando, então, cobria-se o avanço dos civis e guardava-se a integridade física dos missionários que se ocupavam em catequizar os negros, batizando-os com nomes brancos. Ia para Angola todo tipo de gente desde topógrafos, funcionários, aventureiros, como também, homens violentos, exilados políticos e até os primeiros imigrantes que logo se ocupavam da distribuição da terra ou das chamadas “terras-de-ninguém” ou “terras do fim do mundo”.
Assim, crescia em Angola o sonho imperialista do colonizador, enaltecendo sua postura de desbravador do mar e conquistador de terras distantes; em contrapartida, arruinava-se uma rica raça de costumes e crenças.O povo internalizava o costume branco, o negro enfraquecido se despia de sua cultura e aceitava o que lhe impunham, vivendo com a máscara branca de civilidade e superioridade.
Entre muitas riquezas da terra, Angola era rica em diamantes e a exploração era cada vez maior e mais intensa.Os colonizadores usavam o discurso de que a riqueza da terra ajudaria no progresso do país, mas nada era feito pelos nativos, pelo contrário, toda riqueza era absorvida pelos brancos.
Em 1951, as colônias passaram a constar na Constituição como províncias ultramarinas, numa possível tentativa de evitar que a ONU as colocasse na lista de territórios a descolonizar. Em Portugal, o líder político era Salazar que temia a independência de Angola, a qual foi a ultima colônia portuguesa a se tornar livre, pois Salazar se fazia de “surdo” aos apelos de descolonização e se preparava para lutar pela dominação territorial. Esse ditador não via a evolução das coisas, pelo contrário, estagnava-se.
O tempo passou e os anseios calados foram sendo cada vez mais intensos, a resistência africana reivindicava para si seu tempo e seu espaço, a dominação que nunca fora aceita, passava a ser repelida de forma mais contundente. Dava-se o sonho de liberdade! Os nativos davam, cada vez mais, sinais de revolta, entre eles alguns mais instruídos lideravam reivindicações salariais, melhores condições de vida e liberdade. Eram tidos como subversivos, presos e, muitos deles, mortos. Salazar perseverava no desejo ter sempre o domínio de Angola e qualquer idéia contrária era tida como heresia.
No seio de Angola, surgem movimentos de Independência, iniciados em 1961, o país mergulha em conflitos, há guerras internas, grupos em desacordo total, movimentos de guerrilha, entre eles está Jonas SAVIMBI que posteriormente à independência de Angola foi o responsável pela maior degradação humana angolana, levando a fome e o horror a milhares de civis por todo o país. Dos movimentos nacionalistas que lutavam pela libertação de Angola, três se destacaram como o MPLA – Movimento popular pela libertação de Angola, UNITA - União Nacional pela libertação de Angola, e o FNLA -Frente Nacional de libertação de Angola. Dos movimentos de libertação, somente o MPLA foi considerado, pela organização da Unidade Africana OUA, em novembro de 1964, como o único movimento com capacidade para combater o colonialismo português e assumir o poder.
O MPLA era comandado por Agostinho Neto e foi o primeiro movimento mais atuante a ser organizado em Angola e ter reconhecimento e legitimidade. Os conflitos armados se seguiram, conflitos internos e os jogos de interesses castigavam o povo sofrido de Angola, levando muitos a abandonaram o país numa luta pela sobrevivência.
Em 1975 no dia 11 de novembro, Angola é declarada independente de Portugal, garantindo-se a liberdade dos partidos políticos existentes, mas quem subiu ao poder e se tornou o primeiro presidente de Angola, foi Agostinho Neto do MPLA.
2.1 – Boaventura cardoso: um escritor angolano
Boaventura Cardoso nasceu em Luanda em 26 de julho de 1944, viveu sua infância na região de Malanje. É licenciado em Ciências Sociais e diplomado em Antropologia das regiões pela Universidade Pontífica de Roma. O autor viveu no tempo dos conflitos de seu país, seus escritos, num primeiro momento, retratam essa fase combativa e extremamente contrária à colonização portuguesa. Mas, é no plano da linguagem que o autor mais se destaca, ele é um dos escritores mais representativos da sua geração e da literatura angolana. Boaventura Cardoso, política e culturalmente engajado traz, em sua obra o novo olhar da história, dá voz e vez aos calados, faz de seus contos o relato vivo da história de seu povo, um povo sofrido, humilhado que acabou internalizando, obrigatoriamente, um conceito para si mesmo, perspectivado pelo branco.
O autor apresenta em sua primeira obra, DIZANGA DIA MUENHU, traços marcantes da oralidade que se aproximam de sua língua materna como que num desabafo, num clamor à valorização e resgate da cultura africana, oprimida e sufocada pelo colonizador. O autor não é somente um escritor que quer contar uma história, ele assume seu papel de cidadão angolano na luta para denunciar as injustiças, na luta para reconstruir a pátria e seus valores, recriando uma realidade literária, denunciando a variação no funcionamento da língua portuguesa em Angola.
3- UMA “VELHA HISTÓRIA” E UM NOVO OLHAR.
Para contar um fato histórico, seja ele político, econômico ou cultural, devemos sempre levar em conta três breves questões: Quem conta? Quando conta? De onde conta? Partindo desses pontos, entenderemos que todo fato é contado por alguém que traz consigo e revela, através de sua subjetividade, um olhar pessoal; sendo assim, a história é relativizada.
Durantes os séculos passados, a história foi sempre contada através de um único prisma, de forma manipulada, repetindo a fala dos grandes reis, das grandes conquistas, dos grandes fatos dos exploradores, dos desbravadores, dos jogos de interesse, enfim, daqueles que detêm o poder econômico.
A cultura africana sempre foi acusada de ser uma cultura atrasada e selvagem, por causa desse olhar manipulado do dominador. Hoje sabemos que essas afirmações são questionáveis e, partindo disso, historiadores como Marc Bloc e Lucien Febvre e filósofos como Walter Benjamin revolvem o passado em busca de “verdades” soterradas. Esses homens começaram a pensar a história de outra maneira, começaram a olhar a história intrigando-se com ela, naquilo que estava escondido, no que não fora revelado por causa dos jogos de interesses que sempre permearam a História tradicional.
Walter Benjamim foi essencialmente um filosofo que desenvolveu teses para o estudo da história, ele foi um personagem central da Escola de Frankfurt, uma figura culta e pouco compreendida em sua época. Ele, em suas teses para o estudo instiga-nos para a importância de termos um novo olhar da história e ver a história tradicional a contrapelo, escarafunchando as ruínas que o tempo foi deixando soterradas. Para Walter Benjamim, a história oficial constitui uma versão deformada do passado, construída no presente. A história tradicional acaba por ser uma “ficção”, uma montagem seletiva de acontecimentos passados num encadeamento linear voltado a atender interesses de pequenos grupos do poder. Através de Walter Benjamim, somos concitados a conhecer a história dos vencidos, a história problematizada. A história, segundo Walter Benjamim, reduz-se a uma história enviesada ou, mais concretamente, a uma escritura histórica triunfalista: a uma história dos vencedores, ou melhor, a uma história dos grupos dominantes. Como nos cita Walter Benjamim no trecho de suas teses sobre a filosofia da História: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo tal como ele foi efetivamente. É muito mais apropriar-se de uma recordação que brilha num momento de perigo.”
Por outro lado, Marc Bloch e Lucian Febvre também foram estudiosos de um outro olhar da história, eles faziam parte da Escola dos Annales, cuja abordagem para o estudo da História trouxe conseqüências e influências até os dias de hoje. Os Annales procuravam uma história sem fronteiras, uma história problematizada, interdisciplinar, com diálogo aberto para todas as áreas do conhecimento. Fez-se contra o vazio dos fatos, contra ao jogo entre grandes homens, grandes batalhas e a exaltação de grandes povos. A nova história busca compreender o homem na plenitude de seu viver. A escola dos Annales trazia uma ruptura com a historia tradicional, provocando assim um outro percurso para o estudo da história.
Contar a história com o olhar do poder é calar a voz da maioria, daqueles que sofreram por causa da falta de respeito dos que sempre detiveram o poder econômico. Conceber uma história afastada da historiografia tradicional da classe dominante e da história triunfalista é começar a contar a verdadeira história do mundo, é, sobretudo ouvir os murmúrios calados e sufocados. Com os conceitos da Nova história temos, então, a possibilidade de conhecer o que foi calado, pois a nova história aceita a oralidade para se conhecer a história da humanidade. O texto escrito já não é a única fonte de “verdade absoluta”, pelo contrário, o texto escrito passa a ser questionado, pois, sendo escrito, foi escrito por alguém. Quem era o escritor? Que influências ele possuía? De onde ele escreveu o texto? Por encomenda de algum rei? Um nobre? Um chefe? Assim, a história que se limitava aos grandes relatos dos grandes, passa a ser contada pelo que podemos chamar de história do cotidiano. É imprescindível examinar a história da historiografia na sua longa duração.
Na nova história, a história inclui qualquer traço ou vestígio das coisas que o homem fez ou pensou desde o seu surgimento sobre a terra, utilizando todas as descobertas da humanidade, pesquisadas por antropólogos, economistas, psicólogos, sociólogos, políticos, enfim, todos os que possam de alguma maneira, ajudar na revisitação da história tradicional. Segundo François Simiand, em seu famoso artigo, ele diz que para se contar a história, três ídolos deveriam ser derrubados: o Ídolo político que seria a eterna preocupação com a história política, os fatos políticos, as guerras que conferem a esses eventos uma exagerada importância; o Ídolo individual que seria a ênfase excessiva dos chamados grandes homens; e o Ídolo cronológico que seria o hábito de perder-se nos estudos das origens.
A nova história busca desmistificar o poder, mostrando que grandes reis, grandes homens da história foram apenas pessoas comuns que, em determinado momento da história tradicional, tiveram seus feitos muitas vezes exageradamente relatados, criando “ilusões coletivas” que aguçam o imaginário até os dias atuais. O que criava a fé no milagre era a idéia de que deveria haver um milagre. Kal Popper 1935
Grandes acontecimentos da história, se revisitados hoje, com esse novo olhar que a História Nova vislumbra, revelariam que nossa história oficial está cheia de muitos enganos, fatos mal interpretados, grandes exageros e uma infinita quantidade de questões mal postas, onde, muitas vezes, o problema da relação entre o indivíduo e o grupo, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social era uma questão insolucionável.
Partindo dessas novas abordagens, conclui-se que todo olhar da história deve ser parcial e nunca um olhar absoluto, para não incorrermos nos mesmos erros da história oficial que privilegiou a aparência, escondendo a essência; apresentando os fatos de uma forma que, na maioria das vezes, não correspondia à total realidade, o passado projetado no futuro com as marcas do presente, numa idéia quase determinista. Contar a história é trabalhar com as possibilidades, estar aberto a novos dados, novas fontes e novos relatos, desconfiando das tradições e dos relatos que por muito tempo alienaram o homem.
Contudo, a história passada precisa ser recontada. Não ter passado é deixar de construir o futuro. O futuro que se faz no presente precisa redimir o passado, dando vez aos que foram calados. Mesmo que esse passado esteja saturado do presente, é necessário reconstruí-lo não como ele foi, mas naquilo que não foi dito.
3- A história TRADICIONAL e O texto literário
Boaventura Cardoso em seu livro Dizanga dia Muenhu conta a história dos vencidos, a história do cotidiano, dos pequenos, dos detalhes, do povo comum, do povo sofredor, dos protagonistas de uma história na contramão da história tradicional, relata fatos que jamais seriam contados na história dos grandes, numa história linear, cronológica, sem problemas, numa história revelada pelo olhar do poder que acaba alienando o homem.
O autor angolano em Dizanga dia Muenhu quer externar o desejo de falar sua própria língua na sua realidade.Quer contar a história vista com o olhar de quem a viveu, daquele que a conheceu conforme ela foi vivida, denunciando as barbáries cometidas e desfazendo as pseudojustificativas que por séculos permearam a nossa história e a legitimaram.
O livro Dizanga dia Muenhu é dividido em dez contos que trazem uma narrativa idealizada e um narrador que se coloca ao lado daqueles que foram massacrados física e psicologicamente, descreve a situação política de seu país num momento de intensa transformação e revolta, onde uma ditadura repressora e violenta calava os anseios de alguns e seduzia, através da fraqueza a outros, colocando os grupos uns contra os outros, a fim de enfraquecê-los e dividi-los, em troca de benefícios para uns e a degradação moral de outros.
O autor descreve as conseqüências para aqueles que discordavam e lutavam contra o sistema político a que eram submetidos; rotulados de subversivos eram torturados no corpo e na mente, como no conto Juca meu Avilo[2] : Novamente o chicote a lhe sangrar nas costas. Suas famílias viam-se desamparadas e eram obrigadas a despir-se de seus valores e submeter-se em busca da sobrevivência : Nazoras que os vizinhos ensonavam o cansaço, Rosa começou no fabrício de Kimbombo[3], algum dinheiro para sustento Amizade dela com Fifi, munhangueira[4] ...”
O negro, durante todo o período colonial, ansiava pela liberdade como no trecho do conto A família Pompeu e Costa: Miséria nas casas dentro e fora, mas a esperança duma vida outra está crescer crescendo, crescendo risos na boca e nos olhos. Com a idéia da Independência, esse anseio se transformou em esperança para o fim das injustiças, onde os negros poderiam expressar sua cultura, falar sua língua, viver sua religiosidade, comportar-se na família e na sociedade de forma plena, resgatando o que lhe fora roubado.
Em alguns contos de Dizanga dia Muenhu, Boaventura Cardoso revela personagens que se mantêm firmes em seus ideais, enfrentando vários problemas e conseguindo sobreviver. Assim, o autor quer demonstrar a bravura e a força de uma raça que, mesmo corrompida, seduzida culturalmente e sendo vítima da falta de respeito, consegue erguer-se, transformando a dor em canto e a lágrima em recomeço.
Nos contos de Dizanga dia Muenhu, encontramos uma estrutura que permeia relativamente todo o livro: o negro é sempre visto pelo autor como um ser forte quase um herói, seduzido pelo discurso do dominador, ele se torna a vítima, o ser anulado e aquele que é excluído. O branco é sempre o arbitrário, o vilão, o covarde, é aquele que detém o poder e a força, mas não a força do negro corajoso e sim a força bélica da arma de fogo e da espada.
O autor nos revela como o “estereótipo branco” acabou por se tornar alvo de dominação do colonizado pelo colonizado. O negro ao ascender socialmente se despe da sua cultura e passa a se comportar e a tratar seus irmãos como aquele branco covarde, numa afirmação de superioridade. Como podemos ver no conto “O sabor do fruto”, temos, nesse conto, uma menina negra que é criada pelos padrinhos, vai morar em Bruxelas e educada à moda francesa, passa a falar francês. Quando volta pra casa, não consegue mais se alimentar com a comida que a mãe faz, mas, mesmo assim, torna-se o orgulho do pai porque aprendeu a falar a língua do dominador como no trecho: Che! Não fala estrangeiro minha filha assim ninguém te apercebe _ lembrou o pai, no fundo vaidoso até por ela falar estrangeiramente.
Nos contos do livro Dizanga dia Muenhu, encontramos um autor que se apropriou da Língua do colonizador, trazendo marcas da língua do colonizado, reinventando a sintaxe numa linguagem com musicalidade e ritmo que a língua do colonizador não consegue expressar.
No conto Meu toque, o autor denuncia a situação social na qual estava inserido o povo angolano, principalmente, as mulheres que eram obrigadas a trabalhar para o sustento da família. Na maioria das vezes, as mulheres se submetiam à prostituição como é citado no trecho: Kapritkitu mãe dele munhungava[5] no Maçal. Pula[6] que precisava alimentar prazer, se deu encontro com Maria do beco. A prostituição era uma saída para a sobrevivência dos filhos, para não morrerem de fome: Munganhar [7] o corpo é pelejar contra a fome. A mulher angolana era sobrecarregada em seu papel na família, pois, em muitos casos, os homens precisavam trabalhar na agricultura ou eram presos,elas, então, tornavam-se mães e pais dos filhos. Mãe negra é pai e mãe.
Nos contos de Dizanga dia Muenhu, vemos, com freqüência, a figura de crianças, embora elas representem a esperança de uma vida nova, a inocência, a pureza da vida, elas também denunciam que, às crianças angolanas não era dado o direito de ser criança e gozar de sua infância, como nos diz o conto Meu toque: Meu toque era o grito da fome, ,a luta dos homens pequenos empurrados cedo da vida dura ou no trecho do conto Mesene[8]: A compreensão da vida amadurecida nas muximas[9] kandengues[10]. A infância angolana era bem diferente da infância dos meninos portugueses, os pequenos negros eram expostos a todo tipo de maus tratos, desde pequenos presenciavam a violência cultural, física e psicológica que seu país sofria, viam os acontecimentos hediondos, às vezes, o pai, às vezes, a mãe, outras vezes, algum vizinho. Tornava-se até comum e, de alguma forma, as crianças acabavam se acostumando com a realidade cruel em que viviam.
O conto Nga Fefa Kajinvunda[11] revela que os negros não podiam falar na sua própria língua como no trecho: Nos Kimbundos[12] delas escondiam toda a fúria contra o colonialismo que não podiam falar na língua da senhora abertamente. Aos negros não era concedida a liberdade para se expressar na sua língua materna, pois sua língua como toda sua cultura era inferiorizada pelo branco, mas a proibição de falar na língua materna era também uma arma usada pelo branco sempre na tentativa da enfraquecer o povo que sem poder se comunicar acabava se calando.
Outra questão levantada no livro Dizanga dia Muenhu de Boaventura Cardoso é sobre a exclusão geográfica a qual os negros eram submetidos, pois, nas cidades, havia lugar apenas para os brancos, aos negros era dada a periferia da cidade; lá viviam excluídos e apertados nos musseques[13]. Os musseques eram lugares miseráveis, com pessoas que viviam à margem da sociedade onde negócios de becos aconteciam, o musseque era lugar pra todo tipo de gente viver: movimento de pessoas, quitandeiras gritando, ladrões cafricam[14] ,bichas[15] de fome estalando nervos, kandengues[16] jogam alegres, como se
pôde observar nesse trecho do conto O socialismo Kima Kiahi[17] e no trecho do conto Santo Rosa : Comboio velocidade sem ritmo . Estação dos Musseques. Confusão, gritos, mundo nosso marginado.
O autor do livro Dizanga Dia Muenhu não somente escreve o livro num propósito de relatar fatos ou de denunciar os acontecimentos sofridos por seu povo; ele, também, faz de sua literatura um veículo combativo das injustiças e um clamor à luta, como se pode depreender de trecho do conto A família Pompeu e Costa: __Um momento, um momento __leitura prosseguindo: é preciso coragem, a revolução é assim... Existia uma extrema necessidade de ir à luta, lutando contra o colonizador, armar a revolução e atuar nela, guerrear de verdade e não ficar apenas no discurso, na reclamação: A lágrima não faz a luta.
4.Conclusão
Podemos concluir que o livro Dizanga Dia Muenhu nos traz uma nova perspectiva da História. Embora ainda recente para deslumbrarmos toda a beleza e graça da Literatura Africana, esse livro contribui, num primeiro momento, para entendermos como a Arte Literária pode provocar mudanças na História Tradicional. A literatura preenche lacunas que antes estavam vazias, denuncia fatos que jamais a historia tradicional, comprometida com o poder, poderia denunciar, levanta questionamentos que antes nunca foram pensados e ainda compromete a história tradicional numa busca pelo que não foi contado.
Boaventura Cardoso é um brilhante contador de histórias, mas numa visão nova, numa construção literária inovadora e instigante que faz o leitor entender e revoltar-se com o que lê, num movimento de interação com sua obra, fazendo uma construção de extrema valorização da sua raça, de sua gente.
A Literatura Africana ainda tem muito a contar e, através de cada obra escrita por escritores africanos, poderemos compreender a imensidão da falta de respeito do colonizador ao invadir e dominar os povos africanos. Se a África hoje é uma terra conhecida por suas misérias, isso se deve, em grande parte, ao povo branco que não soube respeitar as diferenças de cultura, de raça, de cor, mas, de qualquer maneira, a África hoje será conhecida pela sua produção Literária que valoriza sua terra, sua língua, numa busca incansável pelos fatos ainda não relatados. A África hoje denunciará suas injustiças e contará uma nova história, fazendo o homem civilizado entender que o progresso, que governos constituídos, reis, armas, guerras não fazem homens civilizados, mas que a verdadeira civilidade está em aprender a respeitar as diferenças e crescer com elas num respeito mútuo entre as nações.
5.BIBLIOGRAFIA
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Benjamin: os cacos da história. São Paulo: Brasiliense, 1982.
BENJAMIM, Walter.Sobre arte, técnica, linguagem e política.Lisboa: Relógio D’água, 1992.
SALGADO Maria Teresa, SEPULVEDA (Coord).África e Brasil: Letras e Laços.RJ: Atlântica, 2000.
SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro (Coord), Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX, Angola, Kilombelombe,2000
CARDOSO, Boaventura, Dizanga dia Muenhu, São Paulo: Ática, 1992.
PETER Burke, A escola dos Annales (1929-1989) –A revolução Francesa da Historiografia.São Paulo: Unesp. 1997
Internet: www.angola.com.br
[1] CARVALHO, Ruy Duarte. Noção geográfica proposta para quatro vozes. In SECCO ( Coord. ). Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX. Angola. Luanda: Kilombebe,2000.
[2] Amigo
[3] Bebida ilegal caseira
[4] prostituta
[5] prostituía-se
[6] homem branco
[7] prostituir
[8] professor
[9] coração
[10] criança,muxima kandengues seria sentimento,coração de criança
[11] dona Josefa,a zaragateira
[12] língua falada pelo povo Kimbundo que havia no norte de Angola,ao norte do rio Kuanza
[13] bairro popular urbano e suburbano , semelhante a favela.
[14] roubar
[15] fila
[16] crianças
[17] o que é socialismo
Confiança
Enquanto me fui esquecendo nos séculos
E eis-me presente
Reunindo em mim o espaço
Condensando o tempo
Na minha história
Existe o paradoxo do homem disperso
Enquanto o sorriso brilhava
No canto de dor
E as mãos construíam mundos maravilhosos
John foi linchado
O irmão chicoteado nas costas nuas
A mulher amordaçada
E o filho continuou ignorante
E o drama intenso
Duma vida imensa e útil
Resultou certeza
As minhas mãos colocaram pedras
Nos alicerces do mundo
Mereço meu pedaço de pão.
1949 ________Agostinho Neto
Piando Poesia
se debruça sobre a maré
de bruços a escuridão invade
va dia como a noite...
A área da saudade
idade do tempo
envolve o vazio. No cio
o auge da sensação encoberta
descobre no drama do destino
o pino duma andorinha
piando poesia!
_________António Gonçalves
Estrela Pequenina
Marimbas ngomas, quissanges
Vinde chamar nossa gente
P’rá beira do grande Mar!
Sentai-vos, irmãos, escutai:
Precisamos entender
As falas da natureza,
Dizendo da nossa dor,
Chorando nossa tristeza.
Ora escutai, meus irmãos:
Aquele Sol no poente,
Vermelho como uma brasa
Não é sol somente. Não!
É coágulo de sangue
Vertido por angolanos
Que fizeram o Brasil!
Ouvi o mar como chora,
Ouvi o mar como reza...
Olhai a noite que chega,
Veludo negro tecido
De mil pedaços de pele
Arrancados a chicote,
Ai! cortados a chicote,
Do dorso da nossa gente,
No tempo da escravatura
Noite é luto
De que Deus cobre o mundo
Com dó de nós...
Disco de prata luzente
Sobe ligeiro no espaço.
Sabei que a luta fulgente
Contem lágrimas geladas
Por pobres negros choradas...
Pergunta-me a multidão,
Sentada à beira do Mar:
_Agora, dizei, irmão,
Daquela pálida estrela
Tão pequenina e humilde
Que brilha no nosso céu
Qual é o significado?
Talvez seja finalmente
Deus a olhar para a nossa gente...
________________Mauricio Gomes



