
| Para a forca hia um homem: e outro que o encontrou lhe dice: Que he isto senhor fulano, assim vay v.m.? E o enforcado respondeo: Yo non voy, estes me lleban. (Pe. Manuel Velho) As águas em seu vaivém constante alegorizam sua preocupação em repensar a história de seu país considerando sua pluralidade étnica que resulta, por sua vez, em uma diversidade de verdades que são verbalizadas através de suas muitas personagens. Todas essas vozes entretecidas fazem comentários explícitos sobre o passado, justapondo diversos pontos de vista sobre aquilo a que chamam “história”, sem discriminação entre versões verdadeiras e falsas. Pensando nisso, o poeta senta-se mais uma vez na areia e espera que os últimos raios do sol se despeçam dali para brilhar do outro lado daquele mar outrora português. Pega a ponta do lápis e, devagar, começa a traçar linhas aleatórias pela areia úmida. Inspirado pelo poente, reflete sobre a constatação de que a guerra pela independência tornou-se igualmente crepuscular para Angola porque, apesar de livrar o país da opressão colonial, os ideais revolucionários, infelizmente, não resultaram para o país tal como haviam sido engendrados. Pior, muito pior que isso, muitos daqueles que lutaram por essa transformação são, naquele momento, agentes do mesmo tipo de opressão contra a qual tanto lutaram... O escritor levanta-se mais uma vez tentando, com isso, não pensar nesses e evitar, assim, o gosto amargo que lhe vem à boca ao rememorar tais fatos. Tal como o poeta português que lê desde a mocidade, o homem pensa se, de fato, valera a pena todo o sacrifício daqueles anos, visto que a “verdade” histórica que lhe é apresentada soa-lhe plenamente falsa. Sente-se feliz, no entanto, por viver hoje períodos de paz após tantos anos de guerra colonial e civil. Afinal, foi necessário passar por elas para saber realmente o que significa a paz. |


| Kianda Ateus nos beiços do Ulungu (7) Fazem te panfletária e publicitária No nzumbi (8) do povo é Kituta & benção! (Fernando Kafukeno) O homem recolhe calmamente seus pertences, guarda na bolsa verde o lápis, o bloco de anotações e volta-se pela última vez para o mar. Este lhe responde enviando mais uma onda, desta vez mais forte, que apaga da areia os traços feitos com o lápis. O homem levanta-se e agradece as águas por serem suas cúmplices pessoais e ficcionais, já que elas representam para ele a alegoria de criação do universo, da renovação e do equilíbrio cósmico que possibilitou-lhe e a suas personagens enxergarem-se e compreenderem-se para, então, verem e entenderem profundamente todas as “verdades” que se lhe apresentavam. Ele sabe que as águas são guardiãs da sabedoria angolana já que elas constituem o rio que divide o mundo dos vivos e dos espíritos, de cuja união depende a harmonia da existência porque um inexiste sem o outro. É através do seu correr incessante que se movem as forças primordiais geradoras da vida que fazem com que exista sempre uma possibilidade de recomeço. Tal como nas histórias ouvidas em criança, a evocação dos mitos de origem da vida encerra uma possibilidade de o povo angolano restaurar a harmonia cósmica após os anos de guerra. Por esta razão as águas dos rios, lagoas e mares são para ele um manancial de esperanças. A água lilás, cuja cor e aroma curam e alegram quem a toque ou aspire foi a alegria do povo da Montanha da Poesia, mas também a causa da guerra que o destruiu, segundo fábula que ele começou a rascunhar muitos anos antes. No entanto, é da força primordial delas que sai o canto de Kianda, o ser mítico das águas que, em outra de suas narrativas, ergueu seu canto majestoso e triunfal e alterou com seu poder ancestral tudo aquilo que o homem não pôde ou não quis mudar. Pensando nisso, Pepetela, o homem, o escritor, larga na areia a velha bolsa verde e entra no mar para o último mergulho do dia, para sentir-se revigorado e também para ouvir lá embaixo das ondas ecos do canto guerreiro e divinal das Kiandas, que com suas fitas multicoloridas o saúdam e encorajam a ser agente de conscientização e transformação pela magia e poesia das palavras que ele engenhosamente maneja. _______________ ___________________ Referências Bibliográficas CARVALHO, Ruy Duarte de. Ana a manda, os filhos da rede. Lisboa: Instituto de Investigação Científica e Tropical. 1989. COELHO, Virgílio. “Imagens, símbolos e representações, “quiandas, quitutas, sereias”: imaginários locais, identidades regionais e alteridades. Reflexões sobre o quotidiano urbano luandense na publicidade e no marketing.” Ngola - Revista de Estudos Sociais. Luanda: I, (1), 1997:127-191. DUTRA, Robson Lacerda. O Espelho refratário das águas: uma leitura das relações entre história, ficção e mito em narrativas de Pepetela. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2001. 155 p. mimeo. Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa. KAFUENO, Fernando. Missangas! Kituta. Luanda: Edições de Angola, 2000. HAMPÂTE-BÂ, Amdou. “Palavra africana”. In: O Correio da Unesco. Paris; Rio de Janeiro, 11: 16-20, ano 21, nov. 1993. HILDEBRANDO, Antonio. “A parábola do cágado velho: construindo pontes”. In : SEPÚLVEDA, Maria do Carmo e SALGADO, Maria Teresa. (0rg.) África e Brasil: Letras em laços. São Paulo: Atlântica, 2000. JUNOD, Henrique A. Usos e Costumes dos Bantos. Maputo: Imprensa Nacional de Moçambique, 1974;1975. 2 v. KABWASA, Nsang O’Khang. “O eterno retorno”. In: O Correio da Unesco. Rio de Janeiro, 12: 14-15, ano 10, dez. 1982. LABAN, Michael. Angola: Encontro com escritores. Porto: Fundação António de Almeida, 1988. LARANJEIRA, Pires. Literaturas Africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Fundação António Almeida, 1995. MAIMONA, João. Festa de monarquia. Luanda: Kilombelombe, 2001. MATA, Inocência. “Pepetela e as (novas) margens da nação angolana”. Texto apresentado no VI Congresso Internacional da Associação Internacional de Lusitanistas. Rio de Janeiro, 1999. MELO, João de. (org.). Os Anos de guerra — 1961-1975 — os portugueses em África. Crônica, história e ficção. Lisboa: Dom Quixote, 1998. PEPETELA. A geração da utopia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. . Mayombe. Lisboa: Dom Quixote, 1997. . O desejo de Kianda. Lisboa: Dom Quixote, 1995. RUI, Manuel. Cinco vezes onze poemas em novembro. Luanda: Edições dos Escritores Angolanos, 1985. SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro.“A alegoria de Kianda e o olhar ‘melancolérico’ de Pepetela”. In: Actas do V congresso da Associação Internacional de Lusitanistas . Oxford; Coimbra: Universidade de Oxford, 1998. . (coord.) Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX. Luanda: Kilombelombe, 2000. . “As águas míticas da memória e a alegoria do tempo e do saber”. In: Scripta. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e do CESPUC da PUC/MG. Belo Horizonte: PUC/MINAS, v. 1, no. 2, 1o. semestre de 1998.
fonte:
http://www.vidaslusofonas.pt/pepetela.htm |