Alda Lara


Angola 1930 - Angola 1962 



ALDA LARA (Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluíu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou já um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI). Figura em: Antologia de poesias angolanas,Nova Lisboa, 1958; amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, nº 3, Lisboa1959; Antologia da terra portuguesa - Angola, Lisboa, s/d (196?)1; Poetas angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e contistas africanos, S.Paulo, 1963; Mákua 2 - antologia poética, Sá da Bandeira, 1963; Mákua 3, idem; Antologia poética angolana, Sá da Bandeira, 1963; Contos portugueses do ultramar - Angola, 2º vol, Porto, 1969. Livros póstumos: Poemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de chuva (c), Lobito, 1973



 

PRELÚDIO      
    
Pela estrada desce a noite 
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas, 
nem vestidinhos de folhos, 
nem brincadeiras de guisos, 
nas suas mãos apertadas. 
Só duas lágrimas grossas, 
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento, 
voz de silêncio batendo 
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo, 
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos 
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos  
que ela ajudou a criar?... 
Quem ouve agora as histórias 
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo, 
como eu sei tudo 
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram, 
e esqueceram as histórias 
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe, 
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando, 
mãos cruzadas no regaço, 
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento, 
desta saudade descendo, 
de mansinho pela estrada.. 
 

Lisboa, 1951 (Poemas, 1966




 

PRESENÇA AFRICANA

E apesar de tudo, 
Ainda sou a mesma! 
Livre e esguia, 
filha eterna de quanta rebeldia 
me sagrou. 
Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto, 
ainda sou, 
a Irmã-Mulher 
de tudo o que em ti vibra 
puro e incerto...

A dos coqueiros, 
de cabeleiras verdes 
e corpos arrojados 
sobre o azul... 
A do dendém 
Nascendo dos braços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo 
o chão das Ingombotas... 
A das acácias rubras,  
Salpicando de sangue as avenidas, 
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma. 
A do amor transbordando 
pelos carregadores do cais 
suados e confusos, 
pelos bairros imundos e dormentes 
(Rua 11!... Rua 11!...) 
pelos meninos

de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias, 
de tronco nu 
e corpo musculoso, 
a raça escreve a prumo, 
a força destes dias...

E eu  revendo ainda, e sempre, nela, 
aquela 
Longa história inconsequente...

Minha terra... 
Minha, eternamente...

Terra das acácias, dos dongos, 
dos cólios baloiçando, mansamente... 
Terra! 
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo 
pura e livre, 
me levanto, 
ao aceno do teu povo!   
                             

 Benguela,1953(Poemas,1966)  




 

NOITE

Noites africanas langorosas, 
esbatidas em luares..., 
perdidas em mistérios... 
Há cantos de tungurúluas pelos ares!... 
.......................................................................... 
Noites africanas endoidadas, 
onde o barulhento frenesi das batucadas, 
põe tremores nas folhas dos cajueiros... 
.......................................................................... 
Noites africanas tenebrosas..., 
povoadas de fantasmas e de medos, 
povoadas das histórias de feiticeiros 
que as amas-secas pretas, 
contavam aos meninos brancos...

E os meninos brancos cresceram, 
e  esqueceram 
as histórias...

Por isso as noites são tristes... 
Endoidadas, tenebrosas, langorosas, 
mas tristes... como o rosto gretado, 
e sulcado de rugas, das velhas pretas... 
como o olhar cansado dos colonos, 
como a solidão das terras enormes 
mas desabitadas...

É que os meninos brancos..., 
esqueceram as histórias, 
com que as amas-secas pretas 
os adormeciam, 
nas longas noites africanas...

Os meninos-brancos... esqueceram!... 
 

1948-Outubro (Poemas1966)




  
  
 

TESTAMENTO 
 

À prostituta mais nova 
Do bairro mais velho e escuro, 
Deixo os meus brincos, lavrados 
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida 
Rapariga sem ternura, 
Sonhamdo algures uma lenda, 
Deixo o meu vestido branco, 
O meu vestido de noiva, 
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo 
Ofereço-o àquele amigo 
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus 
Das contas de outro sofrer, 
São para os homens humildes, 
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos, 
Esses, que são de dor 
Sincera e desordenada... 
Esses, que são de esperança, 
Desesperada mas firme, 
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora, 
Em que a minha alma venha 
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora... 
Com passos feitos de lua, 
Oferecê-los às crianças 
Que encontrares em cada rua...


Rumo 
 

É tempo, companheiro! 
Caminhemos ... 
Longe, a Terra chama por nós,  
e ninguém resiste à voz  
Da Terra ... 
 

Nela, 
O mesmo sol ardente nos queimou 
a mesma lua triste nos acariciou, 
e se tu és negro e eu sou branco, 
a mesma Terra nos gerou! 
 

Vamos, companheiro ... 
É tempo! 
 

Que o meu coração 
se abra à mágoa das tuas mágoas  
e ao prazer dos teus prazeres  
Irmão 
Que as minhas mãos brancas se estendam  
para estreitar com amor 
as tuas longas mãos negras ...  
E o meu suor  
se junte ao teu suor,  
quando rasgarmos os trilhos  
de um mundo melhor! 
 

Vamos! 
que outro oceano nos inflama.. . 
Ouves? 
É a Terra que nos chama ... 
É tempo, companheiro! 
Caminhemos ... 


Fonte: Jornal da Poesia

Girassol

CORSINO FORTES



Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido. 

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos 
De velas rotas. 

Amanheceu! 
Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol 
Te desoriente Girassol! 


...

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noite brumosa.
Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.
Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.
E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas Dentro do peito...

São Meus Estes Rios

MANOEL LIMA



São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Canção para Luanda

A pergunta no ar

no mar
na boca de todos nos:
- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

- Xê
mana Rosa peixeira
responde?

- Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!

"Ola almoço, ola almoçoéé
matona calapau
ji ferrera ji ferrerééé"

- E você
mana Maria quitandeira
vendendo maboque
os seios-maboque
gritando
saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
"maboque, m'boquinha boa
dóce dócinha"

- Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
o corpo vendido
batom nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo-cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
o corpo-cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!

- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
trator derrubou?

Meninos das ruas
caçambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?

- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
- Luanda onde está?

Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos
caídos
mostraram o coração:
- Luanda está aqui!

José Luandino Vieira

(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos


Escritor angolano: nascido em 1941

Robson Lacerda Dutra

Pepetela

A RESISTÊNCIA PELA PALAVRA

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1941: Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasce em Benguela, Angola, em 29 de outubro. - 1958: Parte para Lisboa, onde ingressa no Instituto Superior Técnico (Engenharia) que freqüenta até 1960. - 1961: Transfere-se para o curso de Letras. Neste mesmo ano acontece, em Luanda, a revolta que origina a Guerra Colonial. - 1963: Torna-se militante do MPLA - Movimento Popular para a Libertação de Angola. - 1960/1970: Freqüenta a Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, berço dos ideais de independência. Exilado na França e na Argélia, posteriormente gradua-se em Sociologia. - 1975: Independência de Angola. Nomeado Vice-Ministro da Educação no governo de Agostinho Neto. - 1997: Ganha o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra. - 2002: Recebe a Ordem do Rio Branco, Brasil. - Actualmente é professor de Sociologia da Faculdade de Arquitetura de Luanda, onde vive.


BIBLIOGRAFIA

"As Aventuras de N'Gunga" - Primeira obra de Pepetela a ser publicada, antes do 25 de Abril e da Independência de Angola.

Pepetela escreve e publica. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Muana Puó - Romance escrito em 1969 e publicado em 1978.

Mayombe - Romance escrito entre 1970 e 1971 e publicado em 1980.

As Aventuras de Ngunga - Romance escrito e publicado em 1973.

A Corda - Peça teatral escrita em 1976.

A Revolta da Casa dos Ídolos - Peça teatral escrita em 1978 e publicada em 1979.

O Cão e os Calus - Romance escrito entre 1978 e 1982 e publicado em 1985.

Yaka - Romance escrito em 1983 e publicado em 1984 no Brasil e em 1985 em Portugal e em Angola.

Lueji, o Nascimento de um Império - Romance escrito entre 1985 e 1988 e publicado em 1989.

Luandando - Crônicas sobre a cidade de Luanda escritas e publicadas em 1990.

A Geração da Utopia - Romance que começou a ser escrito em 1972 e publicado em 1994.

A Gloriosa Família, o Tempo dos Flamingos - Romance publicado em 1997.

O Desejo de Kianda - Romance escrito em 1994 e publicado em 1995.

A Parábola do Cágado Velho - Romance. Começou a ser escrito em 1990 e foi publicado em 1997.

A Montanha da Água Lilás, fábula para todas as idades - Romance publicado em 2000.

Jaime Bunda, o agente secreto - Romance publicado em 2002.


O HOMEM E O MAR INTERIOR

Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa - Portugal.

Pepetela na década de 60.

O mar trazia facas afiadas
nas costas de uma pedra
(quem diria!)
(Manuel Rui)

“O homem é um ponto minúsculo na imensidão na chana (1) . O sol acaba de se erguer e perdeu o tom ensangüentado que guardara por momentos, depois de violar a noite. O homem já deixou atrás de si uma longa extensão do terreno, coberta apenas por capim. A mata, é ainda um tom azulado na distância e ele espera entrar em seus domínios aos primeiros alvores. A chana à sua frente é um mar, um oceano de capim baixo que lhe chega à altura dos joelhos. Mas ele sabe que lá, onde finda a chana haverá árvores e sombra. No fundo da chana há sempre árvores, bem como à direita ou à esquerda ou atrás; a chana é um mar interior, a única incerteza reside no tempo necessário para chegar à praia.”

“O sol nascente indicou-lhe o caminho e reaqueceu-o do frio da noite. O homem recebe o calor na cara, como uma carícia particular. Sabe que, em breve, a carícia se tornará incômoda e, mais tarde, tortura. Por enquanto, porém, o sol é apenas o ser que fez afastar o frio e os terrores noturnos; é ainda bendito, para depois ser amaldiçoado e, quando desaparecido, ser desejado. Destino de qualquer soberano...”

“O homem tem uma arma, uma Kalashnikov soviética, apoiada no ombro esquerdo. Um boné verde oculta-lhe o abundante cabelo desgrenhado pelo suor e os dias de peregrinação de volta à proteção verde e densa da floresta. A barba termina em duas pontas, no queixo. Os olhos são grandes e realçados pelos sinais das noites mal dormidas. Veste uma farda camuflada e calça botas militares”. Do cinturão está pendente uma bolsa-cartucheira para os carregadores de reserva. Ao lado dela, uma bolsa verde, menor, guarda papéis e o emaranhado de anotações que lhe vêm à mente e o fazem registrar fatos do presente e do passado que povoam sua cabeça. Mais atrás, uma corda enrolada. Do lado esquerdo, o cantil e o punhal adaptável à arma. Na parte da frente do boné está espetado um emblema oval, onde se nota um facho aceso empunhado por uma mão negra: o homem é um guerrilheiro.

Marcha rapidamente em direção à mata, os olhos inquietos abarcando toda a chana. Por vezes, estaca repentinamente e move a cabeça ou inclina-a para escutar e tentar perceber os sons que o circundam. Tenta neles reconhecer a presença de ao menos um dos camaradas de seu pelotão, o do Comandante Sem Medo, mas que neste momento estão perdidos, como ele, após o ataque súbito dos portugueses na volta à base. O silêncio tenebroso da chana o faz recordar vivamente o som de máquina de costura das metralhadoras e as explosões das granadas de que ele, ainda sem saber bem, escapou.

“Logo, no entanto, prossegue, cada vez mais rápido. A farda, as botas, a barba estão sujas de pó acumulado. A estação seca está no fim, mas as chuvas ainda não começaram. A chana está ressequida e a poeira cobre tudo. O capim novo já nasceu e contrasta com o amarelo que ficou da estação passada. Nos sítios onde chegara o fogo posto pelos caçadores, o negro calcinado já foi vencido pelo verde possante que fura a terra. Daí a três meses toda a chana estará coberta de água, água parada onde crescerão girinos, sanguessugas e mosquitos, copulando constantemente. Então, qualquer marcha será um arrastar torturante com água pelos joelhos, com quedas freqüentes por causa dos buracos camuflados e o zumbir permanente dos mosquitos à volta da cabeça.”

Agora, a chana ainda está seca e o homem marcha rapidamente para a fronteira-refúgio.


O MAYOMBE E OS SEGREDOS DO MUNDO

"Mayombe" - capa de uma das suas edições.

Que destino teria sido dado à terra?

teremos árvores crescidas à beira do naufrágio?

Mas há dez anos testemunhei a epilepsia

do planeta e da terra vestida de vespas

vinham aves amarelas, brancas e pretas.

Lembravam que a terra oferecia

em cada instante noites diárias e diariamente

as árvores cantavam quando o planeta

se aproximasse da tenda: em transumância

estava o destino da terra vestida de vespas.

(João Maimona)

“A amoreira gigante está à sua frente. O tronco destaca-se do sincretismo da mata e o homem percorre seu tronco com os olhos: a folhagem da árvore mistura-se à profusão de tons verdes que o encerra na mata. Só o tronco da árvore se destaca, se individualiza. Tal é o Mayombe: os gigantes só o são em parte, ao nível do tronco, o resto confunde-se na massa. Tal o homem. As impressões visuais são menos nítidas e a mancha verde predominante faz esbater progressivamente a claridade do tronco da amoreira gigante. As manchas verdes são cada vez mais sobrepostas, mas, num sobressalto, o tronco da amoreira ainda se afirma, debatendo-se. Tal é a vida.”

Protegido do sol tórrido da chama, o guerrilheiro deixa-se cair à sombra compacta das árvores. Fatigado, cai em pesado sono, mas, pouco depois acorda sobressaltado: um raio de sol vence a copa densa do telhado verde do Mayombe e projeta-se lentamente sobre seu rosto, como a mira certeira da arma do inimigo. O homem levanta-se e empreende, mais uma vez, seu caminho tortuoso pela mata desconhecida, cuidando não deixar traços da sua passagem. Pára muitas vezes e decifra com cautela os ruídos da floresta, até que um som familiar lhe chega aos ouvidos: o rio corre manso à sua frente e o rumor das águas densas aguça-lhe a sede imensa e anestesia seus ouvidos com seu cantar constante e sutil. O homem engatinha para a margem e vence, mais uma vez, o emaranho de galhos, folhas e cipós. Mergulha a cabeça na água fria e pára de respirar por instantes para que a água fresca refresque-lhe a boca ressecada e inunde-lhe a garganta sedenta. Levanta a cabeça mais uma vez e mergulha, por fim, nas águas frias do rio para que a água retire de seu rosto o pó acumulado nos incontáveis dias de caminhada. Mergulha mais algumas vezes e, prostrado, cai em sono profundo com metade do corpo na margem, metade nas águas densas do Lombe.


ESCREVER PARA ENTENDER

"YAKA" - edição da União dos Escritores Angolanos

A costa de Benguela. A sua costa!

O oceano separou-me de mim

Enquanto me fui esquecendo nos séculos

E eis-me presente

Reunindo em mim o espaço

Condensando o tempo

Na minha história existe o paradoxo do homem disperso.

(Agostinho Neto)

O homem acorda, de repente, quando uma onda mais forte vence a areia para lhe banhar as pernas nuas. O mar de Benguela cresce e suas vagas, cada vez mais, prolongam-se pelo tapete alvíssimo que reflete os últimos raios do sol da tarde.

O homem levanta-se após pouco tempo, tenta retirar com a mão os grãos de areia que lhe ficaram presos ao corpo e à barba e, com este gesto, expulsa, momentaneamente, as últimas imagens do sonho afugentado pelas águas daquela praia angolana.

Senta-se outra vez, ainda sonolento, refletindo entre o que é realidade e sonho porque sabe que as imagens brumosas que lhe apareceram sob essa forma pertencem ao seu passado e são, por isso, reais. Reclina-se na cadeira, pega o lápis e o caderno na velha bolsa verde que tem ao pé de si e cobre o branco aquecido do papel com memórias dos dias vividos no Mayombe, os conflitos iniciados naquele distante ano de 1961. Vêm-lhe à mente os soldados com quem conviveu, a fome, a sede, as vitórias sobre o inimigo, as inevitáveis derrotas, as conversas e histórias contadas, quer à luz do luar, quer acossados pelos portugueses, pelas vozes de Baltazar Vam Dum, Mavinga, União, Malongo, Comissário, Mundo Novo, Joel Semedo, Kanda e Lusolo, Sara e Carmina, algumas das muitas personagens que permeiam sua vida. Lembra-se por fim do cessar-fogo diante de uma dita independência que se presentificou diante do olhar vítreo e até então indecifrável de Yaka, a estátua tchokue.

Sua mão corre freneticamente por sobre o papel e faz com que as reminiscências o façam refletir, ali, mais uma vez, defronte ao mar azul do poente, sobre o que foram aqueles anos chamados de guerra. O mar participa da conversa mando-lhe ocasionalmente uma ou outra onda que banham seu pé descalço e fazem com que o homem se levante e contemple sua imensidão e quietude enquanto alisa a barba grisalha.

O mar tem sido seu mais constante interlocutor desde a meninice, quando seu pai português e sua mãe angolana o traziam à praia. Era ali, diante da imensidão nem sempre azul dos dias de calema que ele compreendia de fato as histórias de tradição kwanyama (2) e nyaneka (3) que os empregados da casa lhe contavam, o que o fazia pensar a diversidade de tradições - tão grandes como o mar - que compunha seu país e o tornavam ao mesmo tempo tão diferente e singular.

Foi também naquela mesma praia, em derradeira visita antes de partir para o combate, que ele deixou de ser apenas Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos e assumiu-se como Pepetela, traduzindo originalmente para umbundo (4) um dos seus sobrenomes como nome, literalmente, de guerra, para, a seguir, lançar-se no verde mar das florestas do leste de Angola, a fim de resgatar toda aquela singularidade que seu país perdera.

Durante o enfrentamento e afastado do mar, foi às águas dos rios que o guerrilheiro destinou suas dúvidas e anseios e do diálogo estabelecido com elas foi que ele aprimorou a empunhadura e o manejo das palavras. Através do mergulho metafórico em suas águas que o poeta visitou a profundeza de rios e lagoas, conheceu Kiandas (5) e visitou os domínios de Suku-Nzambi (6), o criador daquele e dos mundos que ele resgataria, anos mais tarde em um de suas narrativas e reflexões.


NAS ÁGUAS DA HISTÓRIA

Pepetela na década de 80.

"O Cão e os Calus" de Pepetela. (Calus é o deminutivo de Caluandas, aqueles que são nascidos na cidade de Luanda, a capital de Angola.)

Para a forca hia um homem: e

outro que o encontrou lhe dice:

Que he isto senhor fulano, assim vay v.m.?

E o enforcado respondeo:

Yo non voy, estes me lleban.

(Pe. Manuel Velho)

As águas em seu vaivém constante alegorizam sua preocupação em repensar a história de seu país considerando sua pluralidade étnica que resulta, por sua vez, em uma diversidade de verdades que são verbalizadas através de suas muitas personagens. Todas essas vozes entretecidas fazem comentários explícitos sobre o passado, justapondo diversos pontos de vista sobre aquilo a que chamam “história”, sem discriminação entre versões verdadeiras e falsas.

Pensando nisso, o poeta senta-se mais uma vez na areia e espera que os últimos raios do sol se despeçam dali para brilhar do outro lado daquele mar outrora português. Pega a ponta do lápis e, devagar, começa a traçar linhas aleatórias pela areia úmida. Inspirado pelo poente, reflete sobre a constatação de que a guerra pela independência tornou-se igualmente crepuscular para Angola porque, apesar de livrar o país da opressão colonial, os ideais revolucionários, infelizmente, não resultaram para o país tal como haviam sido engendrados. Pior, muito pior que isso, muitos daqueles que lutaram por essa transformação são, naquele momento, agentes do mesmo tipo de opressão contra a qual tanto lutaram... O escritor levanta-se mais uma vez tentando, com isso, não pensar nesses e evitar, assim, o gosto amargo que lhe vem à boca ao rememorar tais fatos. Tal como o poeta português que lê desde a mocidade, o homem pensa se, de fato, valera a pena todo o sacrifício daqueles anos, visto que a “verdade” histórica que lhe é apresentada soa-lhe plenamente falsa. Sente-se feliz, no entanto, por viver hoje períodos de paz após tantos anos de guerra colonial e civil. Afinal, foi necessário passar por elas para saber realmente o que significa a paz.


AS ÁGUAS DA ESPERANÇA E DA POESIA

Pepetela, na década de 70.

Mapa Etnográfico de Angola

Kianda

Ateus

nos beiços do

Ulungu (7)

Fazem

te panfletária

e publicitária

No nzumbi (8) do povo é

Kituta

& benção!

(Fernando Kafukeno)

O homem recolhe calmamente seus pertences, guarda na bolsa verde o lápis, o bloco de anotações e volta-se pela última vez para o mar. Este lhe responde enviando mais uma onda, desta vez mais forte, que apaga da areia os traços feitos com o lápis. O homem levanta-se e agradece as águas por serem suas cúmplices pessoais e ficcionais, já que elas representam para ele a alegoria de criação do universo, da renovação e do equilíbrio cósmico que possibilitou-lhe e a suas personagens enxergarem-se e compreenderem-se para, então, verem e entenderem profundamente todas as “verdades” que se lhe apresentavam.

Ele sabe que as águas são guardiãs da sabedoria angolana já que elas constituem o rio que divide o mundo dos vivos e dos espíritos, de cuja união depende a harmonia da existência porque um inexiste sem o outro. É através do seu correr incessante que se movem as forças primordiais geradoras da vida que fazem com que exista sempre uma possibilidade de recomeço. Tal como nas histórias ouvidas em criança, a evocação dos mitos de origem da vida encerra uma possibilidade de o povo angolano restaurar a harmonia cósmica após os anos de guerra. Por esta razão as águas dos rios, lagoas e mares são para ele um manancial de esperanças. A água lilás, cuja cor e aroma curam e alegram quem a toque ou aspire foi a alegria do povo da Montanha da Poesia, mas também a causa da guerra que o destruiu, segundo fábula que ele começou a rascunhar muitos anos antes. No entanto, é da força primordial delas que sai o canto de Kianda, o ser mítico das águas que, em outra de suas narrativas, ergueu seu canto majestoso e triunfal e alterou com seu poder ancestral tudo aquilo que o homem não pôde ou não quis mudar.

Pensando nisso, Pepetela, o homem, o escritor, larga na areia a velha bolsa verde e entra no mar para o último mergulho do dia, para sentir-se revigorado e também para ouvir lá embaixo das ondas ecos do canto guerreiro e divinal das Kiandas, que com suas fitas multicoloridas o saúdam e encorajam a ser agente de conscientização e transformação pela magia e poesia das palavras que ele engenhosamente maneja.

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(1) Chana »» Savana.

(2) Kwanyama »» Etnia do sul de Angola, na província de Cunene.

(3) Nyaneka »» Etnia do sudeste de Angola, ao longo do rio Cunene.

(4) Umbundo »» Língua bantu, do sul de Angola.

(5) Kianda, Kituta ou Kiximbi são “espíritos das águas” e uma das entidades reguladoras do mar, dos lagos, dos rios, dos peixes, das marés e da pesca. Estão ligadas ainda à fecundidade feminina e às crianças, sendo a elas atribuído o nascimento de gêmeos. Apresentam-se envoltas por um clarão e redemoinhos de águas ou de ar.

(6) Suku-Nzambi »» Deus supremo da natureza que, depois de haver criado a terra, o sol e a água, criou a mulher, utilizando terra. Deu forma ao homem, utilizando o fogo como matéria-prima. Após modelá-los, colocou-os à sombra da mulemba, árvore que representa o poder divino, e espargiu-lhes água. A esse casal primordial deu o nome de Samba e Maweze.

(7) Ulungu »» Leme do barco.

(8) Nzumbi »» Alma, espírito.

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Referências Bibliográficas

CARVALHO, Ruy Duarte de. Ana a manda, os filhos da rede. Lisboa: Instituto de Investigação Científica e Tropical. 1989.

COELHO, Virgílio. “Imagens, símbolos e representações, “quiandas, quitutas, sereias”: imaginários locais, identidades regionais e alteridades. Reflexões sobre o quotidiano urbano luandense na publicidade e no marketing.” Ngola - Revista de Estudos Sociais. Luanda: I, (1), 1997:127-191.

DUTRA, Robson Lacerda. O Espelho refratário das águas: uma leitura das relações entre história, ficção e mito em narrativas de Pepetela. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2001. 155 p. mimeo. Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa.

KAFUENO, Fernando. Missangas! Kituta. Luanda: Edições de Angola, 2000.

HAMPÂTE-BÂ, Amdou. “Palavra africana”. In: O Correio da Unesco. Paris; Rio de Janeiro, 11: 16-20, ano 21, nov. 1993.

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fonte:

http://www.vidaslusofonas.pt/pepetela.htm

Quando o Luar Caiu

Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.

As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.

[Conceição Lima]




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A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e o escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) são destaques da Festa Literária Internacional de Parati



fonte: Metrópolis - uol